Caro Miguel,No momento, eu estou aos prantos.
Tudo que li me doeu até não poder mais, mas tudo que senti foi abafado até eu encontrar a habitual janela e o habitual céu estrelado... foi dessa maneira que tudo veio a tona.
Fui apunhalada de todas as formas e devolvi apenas à única pessoa que se importou.
Li todas as minhas cartas e percebi que fui traída aré mesmo por minhas próprias palavras.
Tudo, tudo que escrevi, tudo que fiz, tudo que predestinei para outra pessoa, para a pessoa errada, acabou acontecendo.
E no final eu disse "Prazer, sou eu a pessoa errada, agora posso voltar a olhar pela janela?"
Miguel, me ajude a gritar. Eu quero tanto gritar Miguel! Abafar tudo nos seus braços. Eu não quero ser a cretina.
E nesse momento, só consigo pensar em tudo que fizemos e que eu não consegui impedir.
Eu me sinto usada Miguel, como fui tão inocente ao alimentar de bom grado todas essas cobras?
Eu sempre quis tudo do meu jeito, nunca desci do trono de estrela.
Nunca aprendi a dar valor nas pessoas, porque você pode pensar até que não, mas se aprende a valorizar sim.
Sempre falei demais, e nunca percebi, mas não deixou de ser um ato ignorante da minha parte. Como posso querer o certo se não sou a pessoa certa?
Agora, me agacho no canto do salão e abafo toda a mágoa dos outros membros da casa. Já que eu não posso pedir ajuda, pois eu nunca ajudo, eu nunca consigo ajudar meu Deus...
E toda vez que ergo a cabeça, meus olhos só vêem o porta retrato. Sabia que eu o comprei quando tinha apenas dez anos Miguel? E na época já que não tinha de quem por a foto, eu pintei a sombra de um desconhecido...
Pode parecer estúpido eu sei, mas desde a primeira vez que o vi, eu o achei tão especial que não podia colocar qualquer foto lá. A foto deveria ser da pessoa certa... e só agora penso nisso! Miguel, sua foto está lá há dois anos e foi a primeira foto que esse porta retrato recebeu.
Mas tudo desaba em cobrança e falsidade nesse momento.
Não vou dizer nada que magoe, nem ponha defeitos em você nesta carta...
-Vou rasgar essa carta, não posso mandá-la. Pois sei que ele nunca nem a abrirá. Sei que ele precisa de seu tempo e eu também preciso de um tempo que não consigo ter.-
Miguel, talvez essa carta seja um erro. Uma justificativa pra ficar tudo bem usando a culpa.
Sim, penso agora que comenti um erro, passando a culpa toda pra mim pra poder resolver... mas não cabe só a mim, você se enganou quando pensou que o erro se encontra apenas em uma pessoa, não é assim.
Me desculpe, eu estou me expressando mal e não sei bem o que estou tentando fazer.
Quero ser feliz Miguel, quero tanto ser feliz com você. Quero tanto que isso seja possível.
Eu quero muito não me importar com terceiros, mas como posso fazer isso, se você se importa?
Como você mesmo disse uma vez: 'um novo feliz'. Será possível?
Tem muitas noites que não durmo e eu não paro de pensar em tudo com tristeza, e sei que você também.
Eu pensei seriamente em como te magoei muitas vezes, meu Deus como pude ser assim tão fria?
Minha vontade agora, é abandonar todos mais uma vez. Mas meu maior medo é te perder, e conseguiram alcançá-lo.
Eu queria ainda poder sentir o gosto...
Também desejo a sua felicidade, -não posso mandar essa carta-
Jenny.
-E a carta vai pra lareira, mais uma vez.-











