Há algo sombrio no pôr-do-sol, não sei se são as cores ou toda a sinestesia presente no contexto, só sei que por trás dos panos do horizonte vejo um aperto. Aperto doído e prolongado. É o anúncio da despedida, do sereno envolvente da madrugada, daqueles que gelam da espinha aos pés.
Enganei-me ao aguardar o inverno, permaneci paralisada pelo medo enorme de ao menos esperá-lo, como uma criança, torturada pela ansiedade. Sempre expressada na solidão do timbre das palavras no papel.
Desta ânsia de batalhas, encontrei-me jogada no tão esperado recinto assombrado. Mal percebera que já era inverno e nada podia-se fazer. Não há preparativos e escudos ao alcance.
Diante do choque do inesperado, sinto a dor de uma mente espancada, vejo meus cabelos ao chão.
Assombra-me o pôr-do-sol, assombra-me ver o vermelho se pôr. Pensar em senti-lo trocado por outros tons petrifica por completo meu corpo e alma. Como toda esta dureza se desdobra em agonia tão rápido?
Meu Deus, vende meus olhos, mas me poupe da balança. Têmis não me concedeu nada além da lâmina. Dê-me a cegueira como anestésico, me cegue da dureza, da angustia dessa dor. Rouba-me a lâmina, a paranoia e meus fantasmas. Faça-o depressa, antes que chegue o pôr-do-sol.