Posso dizer tudo brevemente, ou falar e falar a noite inteira com a companhia de um martíni. Bem, não sei por onde começar. Vou optar pelo matíni [disse mordendo a azeitona da taça]...
Foi num hotel... É sim, num hotel. Ficava na esquina do café onde nos encontrávamos todas as terças e as vezes nas quintas. As paredes do corredor deste hotel eram vermelhas sangue, mas era um hotel simples mas luxuoso. Nos subíamos afobados os degraus que levavam ao quarto 18, mal podíamos nos conter de tanta excitação, poderíamos arrancar as nossas roupas naquela subida e nem perceber.
Nos beijamos enquanto tirávamos os casacas de frio na porta do quarto, fomos entrando e arrancando cachecóis, luvas, chapéis e começamos a desabotoar ambas as blusas de linho em nossos corpos... Quando de repente, a porta que não havia sido fechada direito pela nossa afobação, começou a ser lentamente empurrada por mãos idosas. Nos paramos imediatamente. Ele me deu um beijo e caminhou em direção a porta. Eu fiquei parada, meio envergonhada arrumando os botões da minha blusa.
Era um senhor idoso, usava roupas humildes e ouso dizer que mal conseguia se aquecer com o que estava vestido.
-Vocês estão no meu quarto [disse o velho normalmente como se falasse com o padeiro: 2 pães de sal e uma rosca, ou com alguém qualquer]
-Me desculpe senhor, qual o número do seu quarto? [ele disse pegando educadamente as chaves douradas nas mãos do velho e olhando o número]
E continuou:
-Senhor, seu quarto é o 13, nos estamos no 18, vê? [apontou para a porta]
O velho saiu calado com um olhar distante.
Voltamos para o quarto olhamos um no olho do outro e rimos um pouquinho. Ele passou a mão sobre o meu rosto e beijou ternamente minha cabeça.
E então, ouvimos um baque de algo caindo. Corremos até a porta e era o velho. Estava estirado no chão e mal conseguia falar. Corremos até ele e ele disse:
-O que houve comigo?
-O senhor passou mal, mas a ambulância já esta a caminho.
E enquanto eu ligava do quarto para uma ambulância, ele ficava lá socorrendo o velho, que tirou uma aliança do dedo e entregou à ele.
-Passei 40 anos! 40 anos fazendo isso! Diga à eles que acabou.
-O que quer dizer? O que está fazendo?
Nessa hora eu voltei e fiquei perto dos dois. O velho pegou a aliança e entregou para ele dizendo:
-Não diga nada à minha mulher!... Não diga! Por favor! Não diga. Não diga.
-Senhor porque está me dando essa aliança?
-Prometa não dizer nada à ela! Prometa! Prometa!
-Nós prometemos [eu disse interrompendo os pedidos aflitos do velho. ele me olhou com censura mas não disse nada]
A essa altura a ambulância havia chegado. Não nos deixaram entrar porque não éramos parentes, então fomos até o hospital. Mas chegamos tarde por não saber bem o caminho, haviam revistado seus bolsos e comunicado os parentes.
E lá estava ela, a esposa. Não parecia má, mas sim muito abalada. Era bonita, embora parecesse pobre.
-Sra. York?
-Sim?
-Bem... fomos nós quem encontramos seu marido.
Ela me olhou nos olhos enquanto eu pronunciava a frase e me abraçou chorando sem parar.

***

Mais tarde fomos pro café. Eu, ele e a Sra. York.
-Sabe... ele sempre foi assim. Corria atrás de qualquer uma... qualquer prostituta, vagabundinha que estivesse por aí. Mas isso é o de menos. Sempre some, nunca sei onde ele está. Nunca serei boa o bastante para ele. Mas só pelo fato deu saber que ele está vivo, por aí em algum lugar... só pelo fato dele estar bem, eu já fico feliz por ele. Por ele, porque por mim? Só me basta amá-lo e saber que ele está bem. [ela repetia enfadonhamente a frase: "saber que ele está bem" enquanto olhava fixamente pro seu café]
-Eu sinto muito
-Não sinta minha jovem. Eu não posso viver sem ele. Não posso. Mesmo que seja apenas por algumas horas... sabe? Eu seria capaz. Eu não posso viver sem ele. Não posso viver sabendo que ele morreu.
Aquela conversa foi mórbida, e foi a primeira vez que nada saiu como nos sempre combinávamos.
Horas depois, quando o dia começou a clarear o Sr. York morreu.
Eu estava no carro com ele, não me contive e disse:
-Você acha mesmo que ela seria capaz de se...
-... se matar?
[acenei a cabeça fitando os cadarços para não olhar nos seus olhos]
-Eu acho que não.
-Porque?
-Porque não. Ela não seria capaz. Ele não a merecia.
-Mas ele até te deu a aliança, queria fingir que não era casado... talvez ela não fosse tão boa assim.
-Talvez sim, talvez não. Como poderíamos saber?

***

Na outra terça, lá estávamos nós no café. Mas dessa vez acompanhados do jornal da semana passada que eu havia acabado de comprar no caminho.
-O que você está lendo? [ele perguntou]
-Ela se matou.
-Eu nunca poderia imaginar...
-Poisé, você disse que ela nunca seria capaz. Por que disse isso?
-Eu... eu não sei. Tento ser otimista com as coisas... acho que é isso. Não sei mesmo [disse embaraçado]
-Ela o amava.
-É, ela o amava.
A garçonete serviu meu café e o conhaque dele. Ficamos calados por uns dez minutos, quando eu agitada para perguntar disse:
-Você já fez uma declaração de amor para alguém?
-Não
-Não?
-Quer dizer... já. Não sei direito...
-Por que não sabe?
-Porque antigamente eu costumava fazer... mas acho que... [e se calou se sentindo incomodado]
-Por que não faz mais?
-Acho que é uma cantada ruim [disse forçando uma risadinha]
-Cantada? Mas você se declara quando ama alguém! E não porque quer algum dia ter algum laço afetivo com alguém. Então, não vejo porque isso seria uma cantada! Quando você se declara, é porque você ama tanto, tanto que mal pode segurar isso dentro de si! Parece que vai explodir se não dizer à ela, ou no caso de amor correspondido, quando se diz ao mundo o quanto é bom amar a pessoa com quem se esta. Mesmo ela já sabendo... [e sim, eu não calava mais a boca!]
-Não quis dizer isso! Eu sei o que é fazer uma declaração pra alguém que não sabe que você o ama, ou para alguém que sabe mas que o mundo ainda não sabe...
-Então do que tem medo?
-Não sei! Derrota, fracasso, ser ignorado, mágoa, deboche, ser usado... Eu não sei!
-Eu te amo [eu disse interrompendo seu tom alto de voz nervosa] Eu não sei bem! No começo era apenas físico! Eu não sei nem seu nome! Mas, eu quero passar a minha vida com você... Eu... Eu quero me casar com você! Ter filhos, vários! Viajar com você, talvez dar a volta ao mundo! Envelhecer ao seu lado, usar dentaduras! Quero dizer... não a mesma dentadura, cada um com a sua ... [eu não calava mais de nervosismo, quando finalmente resolvi olhar nos olhos que iriam me corresponder ou não. e tive um susto] Você... você está chorando?
-Não... quero dizer... Sim. Estou, por que algum problema com homens que choram?
-Não, não, não... Acho até bonito, você... Afinal por que está chorando?
-Eu me emocionei só isso... nenhuma mulher nunca havia dito isto pra mim... me desculpe isso é constrangedor.
-Não, não é não. É bonito, é bom chorar. Por pra fora. [disse dando um tapinha na sua mão]
-Não é nada bonito no meio de um café cheio de pessoas nos olhando.
-E você... me ama? [disse olhando rapidamente nos seus olhos]
-Eu... eu não sei. Estou muito emocionado neste momento, me desculpe. Espere um minuto.
-Tudo bem [eu disse sorrindo, afinal, eu havia falado e não havia explodido]

***

Homens...
Era tão estranho quando ele me olhava nos olhos. Quando me olhava por inteira, e observava cada gesto, cada sarda do meu rosto, cada vez que eu arrumava o cabelo com a mão...
É tão estranho se sentir desejada.
Mas, mas estranho ainda, era sentir que eu também o observava com os mínimos cuidados e o desejava reciprocamente.
Nossos olhinhos brilhavam quando nós viamos. Era como andar de roda gigante, sendo que quando a mesma parava, nossa cadeira era a mais alta. E essa sensação só conseguia dar lugar à saudade, de quando tínhamos de dizer adeus mais uma vez.