Meus dias chuvosos foram estáveis, quisera eu também serenos.
A ânsia do novo começou, finalmente, a regredir para talvez um inevitável fim das minhas ilusões.
Das desilusões me abastei, enfrentei da maneira mais racional que pude.
Era satisfatório, tinha de ser efêmero.
Será efêmero mesmo se um dia, com a minha prévia calma, se concretizar.
Me senti o ser mais belo por um dia e o mais horrendo no outro, fazia parte, o que estava em jogo era a imagem não a razão.
A futilidade do espelho me libertou da sobrecarga da razão, dos livros, da políticagem e até mesmo do pesado Vade Mecum.
Estou aceitando o que sou, sem pena, sem perder o foco dos meus objetivos.
Prometi não mais me perder do que sou, de reconhecer, por fim, as sábias palavras de Carrol* através do espelho, as brisas de Woolf** sobre meus poemas, o roçar dos gatos sob meus dias e o calento da noite, das cobertas limpas deslizando sob meu corpo.
Finalmente senti que existia, com ajuda? sim.
Não me sinto subjugada ou menos que qualquer um por ter precisado gritar, e gritei... como gritei.
Ao quebrar o silêncio assustei a todos e a mim por cavar fundo demais. Escolhi não me esconder mais na superfície, no submundo do país das maravilhas que sempre criei.
Descobri que existia, que o contato era real e que a química e o poço que cavei feriam, envergonhavam, mas tenho esperança que podem me trazer de volta.
Descobri que posso sobrevoar o real, comandá-lo e, talvez um dia, abraça-lo como parte de mim.
Por enquanto, aceito minha condição de permear entre a existência e a não-existência. Acredito que fará parte do processo de alavancagem, do despertar que me restou.
A menina dos belos cabelos negros disse que talvez o caminho seja esse, disse que se orgulha de mim. Espero um dia me orgulhar com real empatia também, não aquele orgulho de se sentir subjugado em relação ao outro.
Talvez reste tão pouco tempo, ou então seja preciso tempo demais ou talvez, o tempo nem mesmo exista no caminho que escolhi.
Sinto medo, aquela reviravolta no estômago do inesperado. Minhas auto sabotagens me ameaçam com perdas sem oferecer saídas.
Por hoje vou evitar o que me dói, por agora os calmantes levaram o gosto amargo, das enfermidades do corpo você sempre me fortaleceu.
Vou esquecer uma noite o medo de não te ter amanhã ao meu lado e que seja doce enquanto dure.
Apaguei as lágrimas sem cigarros.

*Lewis Carrol
*Virginia Woolf