Essa madrugada a narrativa será envolta pelo livro le femme rompue da Simone de Beauvoir. Identifico e ao mesmo tempo acho distante por demais os parâmetros que poderiam ser comparados a Simone e Sartre e as minhas narrativas.
Confesso que o difícil mesmo vem sendo escrever na primeira pessoa e jogar aos ventos a mistura de cores das máscaras dos meus personagens.
Pois bem, hoje falarei do homem que foi responsável pelos dias mais felizes da minha vida.

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Não desejo que a vida se ponha a ter outras vontades que não as minhas. Foi isso que pensei ao largar meus antigos romances infantis e me embarcar cegamente num navio de premissas, sonhar com aquele país das maravilhas.
Mas apesar da cautela para amaciar a quebra de sonhos que se sucedia, a situação se tornou crítica. Talvez se tudo fosse direto, descuidado os rumos poderiam ser melhores, ou não. Só sei que as pessoas sempre simpatizam mais com a desgraça do que com a felicidade.
Não me sentia absolutamente rejeitada pelo meu meio; eu é que o abandonara a fim de entrar nessa sociedade de que via ali uma miniatura, um mundinho novo cheio de medos e esperanças.
Hoje cedo nossa história desabrochou na minha memória e desejei ardentemente ser de novo a garota que vai pro colégio de freiras de manhã e tem uma certeza serena… No entanto, não quero acreditar: um ato de fé é o ato mais desesperado que existe e quero que meu desespero pelo menos conserve sua lucidez. Não quero mentir para mim mesma, eu não sou essa garota e se ainda fosse seria cega, ardente de paixão, de sonhos e de desejos que visavam retardar o relógio. Já sabia que tudo aquilo um dia acabaria, por isso mesmo, fui a mulher mais feliz desse mundo naqueles meses, naquele ano.
Socialmente, o paralelo entre as nossas idades sempre foi notado com indiferença. As roupas eram colegiais, com direito a fichário colorido e tudo mais. O corpo ainda tinha traços de menina e os sonhos eram plenos mesmo que infantis e romantizados. O silêncio que permeava entre sua família quando descobria minha idade ou meu uniforme se arrastou comigo um bom tempo.
O frio no estômago quando o vi sem camisa naquela época explica tudo que eu era, uma menina encantada e ao mesmo tempo assustada; não sabia o que era corpo de homem. Me assustei com aquele peitoral largo que seria por tanto tempo o bálsamo do meu sono, foi com a cabeça recostada sobre ele que descobri que amava, e como amava cada pedaço daquele porto seguro.
Ele é todo beijo na testa e chocolate quente na cama. É o entrelaçar de pernas, sentir frio a noite porque eu roubei a coberta e não tem coragem de me tomar. É o braço dormente porque mesmo durante o sono aqueles abraços demorados não poderiam cessar, pra quê olhar pro lado para a certeza da sua presença quando posso te sentir comigo toda a noite, até o dia clarear.
Era inocente, reluzente. Era a pureza da chama que se consomem os diamantes mais límpidos, era a certeza de que mais do que tudo que já era, era tudo bem escrito com tamanho amor. Não era preciso saber onde o outro estava ou com quem estava, não tinha nenhum jogo de angústia. Cuidávamos sempre um do outro, nunca havia dor.
Amava mesmo as peculiaridades, os presentes de antigas namoradas expostos, o cheiro do cigarro em suas mãos e do café no seu hálito, amava a forma como ele não sabia se vestir, a sua indiferença com o futuro e amava até mesmo os seus roncos nas noites de inverno.
Era sonoridade, sabor, tom, pele, visual, intelecto e leveza.
O problema está no termo final, a minha leveza, a nossa leveza, doente de tão apaixonada. Cega e entorpecida passara das nuvens e prosseguia sem controle. Abandonamos a vida externa naquele ano, construímos o país das maravilhas e achávamos que duraria para sempre. Não durou, ele se agarrou ao último instante que pode antes de pegar as malas e seguir a estrada, sempre com juras que tudo aquilo era também por nós num futuro (in)certo.
Não havia dinheiro, espaço, conforto, comida, saídas, nada. Eram dois dias dentro de um quarto pequeno, quente com o desconforto do barulho do metrô. Eu esperava por aqueles dias mais que qualquer coisa na minha vida, toda vez que eu partia, que ele partia, era como se eu tivesse que morrer de novo, ver de novo o xadrez e o cinzeiro serem empacotados e levados para longe de mim.
A distância foi a melhor dor que senti na vida, dor com certeza plena de revigorada pelo relógio, que agora, tornara-se inimigo. Como é estranho o amor...
Precisei reviver tudo que foi belo e passou para encontrar o peso, que ironicamente surgiu da leveza mais extrema. Extremos, se avaliados no contexto geral, nunca são bons, mas quem vai negar a delícia que é morrer de amor?
Voei com a minha leve bagagem, difícil o abandono como pensei não foi. Difícil mesmo foi a nova vida, as paredes finas e a miniatura que tudo isso me tornou. Naquele tempo ele foi mais que família, pai, amigo, irmão. Ele foi os braços que machucaram carregando minha estante e as mãos que me acalentavam numa maca de hospital. Foi meu herói, não há palavra melhor.
Por isso ainda é tão difícil definir quando suas asas foram perdendo a cor, ou quando as minhas começaram a se espremer, implorando para crescer.
Amar é diferente de enxergar alguém como possibilidade para uma vida, o amor nem sempre dura o eterno retorno de Nietzsche.
Encerro ele aqui com muito cuidado e lágrimas que desconhecem a que sentimento pertencem.
Com ele nunca precisei de cautela para escrever sobre o amor.


*esse assunto é muito forte e não consigo revisar esse texto hoje, perdoem os tropeços.
**não revisei o texto, não posso mudar o que é tão sincero e espontâneo.