"Que tempos difíceis eram aqueles: ter a vontade e a necessidade de viver, mas não a habilidade."
É assim que me sinto hoje. Hoje eu não podia adiar a escrita, o trabalho, o estudo, os códigos e as responsabilidades censuram a melancolia.Isso parece bom, parece simples acumular trezentas e sete tarefas para esquecer. Apagam-se as leis, fecham-se as bocas e dos murmúrios não escuto mais, o coração também se afasta... e como é bom não ter coração.No esconderijo do sol começa a crescer o inimigo. É hora de descansar da exaustão da mente, do corpo, dos olhos. A mente, no entanto, cospe injúrias, esquece de esquecer.
Nos relapsos de lembranças, no silêncio das calçadas, me vem tudo que me dói, tudo que corrói. A dificuldade de se relacionar com as pessoas e a facilidade para seduções baratas, a incapacidade de planejamento e organização, a impotência e o sentimento de intelecto inferior, as reviravoltas do amor/humor e a angustia... angustia mansa que chega devagar sem se notar, angustia braba que se dá com um baque e envergonha.
No entanto, tudo que tenho feito é deixar a angustia de lado, tentar desconsiderá-la como um livro esquecido na estante. Ignorá-la e torná-la até mesmo risível depois de algum tempo... Mas minha grande inimiga se recusa a ser tratada simplesmente como uma pessoa que é preciso deixar por aí, nas estantes da vida. O seu grande problema é estar entranhada, funda e segura de sua permanência. Tentar combatê-la com meio internos, químicos, neurológicos é uma maneira de tentar vetar algumas das consequências de seus sintomas. Sei que domar os sintomas físicos de maneira externa só vai adiar ainda mais o que está claro toda noite em meus sonhos. São tantos símbolos travando guerras ilegíveis dentro de mim, procuro lê-las mas são tão difusas, paralelas... Ignoro-as, não escrevendo. Censuro-as através do corpo, das fobias, do pânico.
E no mais, meu problema é sempre o medo. Tenho um medo aterrorizante e constante, das pessoas, da exposição, da rua, da cobrança do trabalho e do sentimento de impotência nos estudos. Tenho medo, acima de tudo, de não ter o apoio dele ao meu lado, ou pior, dos dias em que suas ações me repelem, censuram a angustia e fazem eu me trancafiar cada vez mais nesse meu mundinho do país das maravilhas, que das maravilhas só tem o nome e literatura.
Rasga-os da mente se souberes de cór."
Florbela Espanca












