Sarah começou a se arrumar uma hora e meia antes do horário combinado. Ela sabia que ele iria se atrasar pra buscá-la, mas de que importa?
Ela se olhava no espelho, e se arrumava com a maior paciência e dedicação. Primeiro os cachos caídos no ombro, depois limpava e maquiava cuidadosamente a pele e os olhos. Passou os próximos trinta minutos para escolher a roupa e mais quinze para passar a fita no corpete. Pronto.
Na sala ao lado, Courtney Love cantava Heaven Tonight na tela do computador. Era sim, a música que Sarah sempre escutava quando seu amor batia mais forte por ele.
Mas hoje ela se olhava no espelho, balançava o cabelo bem penteado e cantava para si mesma junto com a música:
- You can be happy (Você pode ser feliz)
Maquiava o rosto cuidadosamente e continuava a canção:
- In the summer rain, take you to heaven tonight (na chuva de verão que leva você para o paraíso essa noite)
Batom rubi nos lábios carnudos:
- Here comes the kiss that I never had (aqui vem o beijo que eu nunca tive) - beijou o espelho e sorriu.
- Because I love you for what you are (por que eu amo você, pelo que você é)
Terminou o refrão e o lápis preto anos sessenta nos olhos.
Apagou a luz do banheiro, deitou na cama e ficou escutando a voz da courtney love nas próximas músicas...
[...]
O celular tocou e Sarah caiu da cama de susto. Afinal, camas de mola tem a desvantagem de te jogarem no chão com movimentos muito bruscos.
-Maldita cama! - praguejou
Atendeu o celular. Era ele. Já haviam se passado uma hora após o horário marcado e ele ainda não havia chegado. Havia um inoportuno que o atrasara. Mas ela nem se lembrava qual era, porque sempre havia algum em todos os atrasos.
Então se levantou e viu que estava sozinha na casa. Seus pais haviam saído e ele iria chegar para buscá-la. Correu para se arrumar para um sex all night, na verdade apenas por uma hora ou quarenta minutos sem pais em casa, mas já era alguma coisa no estilo comédia romântica do telecine cult. Vestiu uma meia arrastão, retocou a maquiagem e arrumou a cama. Deitou esperando-o chegar.
Ele demorava. Começou a rabiscar no caderno ao lado: Sarah, Sarah, Sarah, Sarah...
a folha havia acabado, e nada dele chegar. Virou a folha e começou a escrever seu nome ao contrário: Haras, Haras, Haras, Haras...
caiu novamente no sono.
[...]
Acordou com o celular mais uma vez e outra batida de bunda no chão do quarto pelo maldito colchão de mola a ter derrubado. Ele novamente, e dessa vez havia se passado mais meia hora.
Praguejou novamente, mas dessa vez não apenas pro colchão.
Tirou a meia e fez questão de jogá-la no fundo do guarda roupa.
- Será que nem pra enfiar seu maldito pinto em algum lugar ele não se move!?
Sarah rasgou as folhas, tentando rasgar da sua memória também o tempo gasto esperando e se arrumando.
Ele havia dito que iria vestir uma camisa. Pensava consigo, vagando pela casa. O que o faz ter tanta irresponsabilidade quando se trata ao meu respeito e brincar assim com a minha paciência e moral? O que o faz perder aquele interesse do início de tudo? O que poderia ser senão ausência de seu amor a mim em seu coração?
Não queria mais pensar. No fundo, Sarah sabia desde o começo que se arrumava para si mesma.
A essa altura de pensamentos, seus pais haviam chegado com pedaços de pizza e mal humor.
E vinte minutos depois, o celular toca:
-Sarah?
-Oi -disse tentando despistar a mágoa-
- Oi?
-Oi!-ele sempre dizia oi duas vezes e isso a irritava todas as vezes que atendia o telefone-
- Estou aqui embaixo, desça.-disse ignorando o fato que ela havia o chamado para subir em cada trezenta e cinquenta e quatro telefonemas de: "irei me atrasar mais um pouco". Mas continuou a coversa pois seus pais haviam chegado e ela também não queria mais nada aquela noite-
-Tá. -a voz era fria e seca, ela tentava, mas não conseguia esconder por muito tempo o sentimento de ser ignorada-
Desceu as escadas, sem muita pressa e sem nenhum ânimo, afinal haviam se passado duas horas desde o horário combinado. Então parou e disse a si mesma:
- Conversar não iria adiantar. Nunca adiantou nesse assunto. Para ele sou uma idiota de me magoar pelos seus inúmeros atrasos. Mas sim! Sou uma idiota! Eu estou aqui, e tenho tudo para chegar ao meu próprio céu hoje a noite. Não preciso de atenção de ninguém, por isso não fui ignorada por ninguém. Estamos sempre sozinhos, e viveremos sempre assim. A dependência só é válida por algum tempo, depois ela esgota. Esgota ambos. Eu não sou um parasita tão patético assim sou? Vamos lá! Vamos que minha noite só termina quando o relógio marcar meia noite. Minha noite. Minha noite acompanhada ou não. Mas continuará sendo a minha noite.
Abriu a porta da rua voltando a cantar Heaven Tonight do Hole:
- Here comes the sun in the form of a girl, she's the finest sweetest thing in the world take you to heaven tonight... ( aqui vem o sol na forma de garota ela é a doçura mais delicada do mundo e leva você para o paraíso essa noite...)
Naquele início de noite, Sarah se sentia sozinha como nunca, mas sentia uma onda de libertação da sua inimiga dependência. Era um grande passo para o abandono de tudo. Abandono que invadia e saía da sua mente na mesma proporção de tempo. Na mesma proporção que ela sentia o abandono dos sentimentos dele para ela.