
“O mito do eterno retorno diz‑nos, pela negativa, que esta vida, que há‑de desaparecer de uma vez por todas para nunca mais voltar, é semelhante a uma sombra, é desprovida de peso, que, de hoje em diante e para todo o sempre, se encontra morta e que, por muito atroz, por muito bela, por muito esplêndida que seja, essa beleza, esse horror, esse esplendor não têm qualquer sentido.
Não há muito, eu próprio me defrontei com o fato: parece incrível mas, ao folhear um livro sobre Hitler, comovi‑me com algumas das suas fotografias; faziam‑me lembrar a minha infância passada durante a guerra; diversas pessoas da minha família morreram nos campos de concentração dos nazistas, mas o que eram essas mortes comparadas com uma fotografia de Hitler que me fazia lembrar um tempo perdido da minha vida, um tempo que nunca mais há‑de voltar?
Esta minha reconciliação com Hitler deixa entrever a profunda perversão inerente ao mundo fundado essencialmente sobre a inexistência de retorno, porque nesse mundo tudo se encontra previamente perdoado e tudo é, portanto, cinicamente permitido.”
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A idéia do eterno retorno me faz lembrar da teoria física dos Muitos Mundos, que não tem muito haver com a primeira, mas traz uma analogia muito interessante de repetições, porem repetições diferenciadas, ao contrario da Idéia do Eterno Retorno.
Embora muito sábia a passagem do autor sobre Hitler, penso que a idéia de uma reconciliação não possa ser maior que a mágoa pelo que foi perdido, sendo portanto exageradamente efêmera demais, se encaixando perfeitamente nas teorias de Nietzsche do eterno retorno. O eterno retorno pede reconciliação e ao mesmo tempo uma sensibilidade um tanto fria.











