Não sou convicta, valente ou segura. De fato, gostaria de ser uma exclamação, mas no lugar disso tornei-me um ponto e vírgula: tímido, indeciso, um separador de palavras e expressões.

Essa noite eu pensei de várias formas em como escrever na terceira pessoa. O intuito é bem claro: fugir dessa vida pouca que possuo, recheada de realidade por demais. Ao mesmo tempo para despi-la anonimamente na minha zona de conforto. Vivo de fugas, as vezes me considero uma eterna Sabina*.

Raramente escrevo a palavra "amor" no papel, como se ela me desautorizasse, ou simplesmente não fosse digna de dar o ar de sua graça e beleza nos sentimentos e devaneios que tenho de uns tempos pra cá. Me pergunto se me desvio do amor por questionar constantemente se meu amor próprio não se tornou um ponto de interrogação mal escrito.

Martirizando minha terceira pessoa, pergunto-me se o arrepio que sinto é apenas uma brisa constante, repleta de vírgulas e sonhos. Concedi-me essa noite permissão para escrever sobre o amor - e todos os sentimentos difusos que vejo em você.

Estou anestesiada há dias, não me envergonho de dizer que meus pensamentos são mórbidos e descrentes. No entanto, não sei dizer se esse luto é pela minha morte em você, pela sua morte em mim, pela morte do amor, das fortalezas e castelos palpáveis de sonhos que construímos ou do meu desejo de terminar tudo isso de uma vez não acordando mais.

Como disse, vivo de fugas, mas elas já não me alimentam há dias. A paixão dos suicidas que se vão sem explicação é incerta e confortável, mas constante.

A esperança que me dás é desalmada, agressiva e egoísta.
A esperança que me dás tem sangue covarde.
A esperança me mostra o quanto é mais importante para ti me ferir para conseguir olhar mais uma vez em meus olhos.

Por fim, a única certeza que tenho é que todo esse plano maquiavélico reflete quem você realmente é, quem eu mais tinha medo que você se tornasse, quem um dia segurou nas minhas mãos trêmulas
e prometeu que não se tornaria - mais uma vez.

Seus rabiscos já não marcam meu papel. Suas certezas se foram do meu coração.
Seu amor é incompatível com a verdade. Suas ações são cruéis e descuidadas, vazias da empatia e cuidado que têm o apaixonado. Mas, se de fato pensas que há amor, reflita se ainda és digno da afeição do meu toque.

Contradizendo minha força oscilante, confesso que o medo assombroso de te perder é inimaginável,  dilacera cada pedaço do meu corpo. A sensação de não estar realmente viva, advém de um soco no estômago, um vazio que não tem fundo. Não se vai, temo que nunca se vá, e assim os dias se tornam meses, os meses se tornam anos. O tempo é lento e incerto no menor pensamento de esperar seus olhos na minha porta.

Desejo esperar, mesmo depois de teres me matado inúmeras vezes.
Meu Deus, por que essa esperança amaldiçoada permanece?
Talvez eu ainda seja aquela garotinha sardenta de quatro anos que acredita com todas as forças que, se deixar de se alimentar, o tempo irá retroceder. Assim ela, enfim, terá sua chance de fazer tudo novamente, de focalizar o sangramento nas tentativas de concertar o que o tempo levou embora.


*Sabina: personagem do livro "A Insustentável Leveza do Ser" de Milan Kundera