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About a Girl

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"Nasci em 1992, no interior do estado. A dança-teatro e o cinema formaram meu primeiro imaginário: a palavra vinha como complemento das imagens. Quando descobri os livros, bem cedo, aceitei-os apenas como o lugar das palavras e das idéias, vendo as imagens a que remetiam ou sugeriam, como fantasmas imponderáveis e sem substância, descabidos, impróprios para aquele tipo de veículo. Quando me pedem que fale de mim mesma, sinto o incômodo, pergunto: que imagem devo projetar? Tenho tantas. Acho que a melhor para o caso é a que passo nos próprios posts, de alguém que escreve mas não acredita nos fantasmas das palavras, embora eles sejam inevitáveis. E a melhor forma de conviver sem temor com essas fantasias é jogar com elas, torná-las risíveis, desautorizá-las, de modo a evitar o poder técnico abusivo que tem quem escreve, para iludir o leitor."

Aos destinatários destas palavras

"Pra dilatarmos a alma
Temos que nos desfazer
Pra nos tornarmos imortais
A gente tem que aprender a morrer
Com tudo aquilo que fomos
E tudo aquilo que somos nós"


O Teatro Mágico

Quem lê

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Ele a amara desde a infância até o momento em que a acompanhara ao cemitério, e amava-a em suas recordações. Isso o levara a pensar que a fidelidade é a primeira de todas as virtudes, que a fidelidade dá unidade à nossa vida, que, sem ela, iria estilhaçar-se em mil impressões fugidias.
Franz costumava falar sobre sua mãe com Sabina, talvez fosse de sua parte um plano inconsciente: supunha que Sabina ficaria seduzida por sua tendência à fidelidade, e que isso seria uma forma de prendê-la.
Era, porém, a traição e não a fidelidade que seduzia Sabina. A palavra fidelidade lembrava-lhe seu pai, puritano de província que, por lazer, pintava aos domingos o poente sobre a floresta e
buquês de rosas num vaso. Graças a ele, começou a desenhar muito jovem. Aos quatorze anos, apaixonou-se por um rapaz da sua idade. Seu pai teve medo, e proibiu-a de sair sozinha durante
um ano. Um dia, rindo muito alto, mostrou-lhe reproduções de Picasso. Já que não tinha o direito de amar um rapaz da sua idade, apaixonou-se pelo cubismo. Depois de formada, foi para
Praga com a reconfortante impressão de que finalmente poderia trair a família.
A traição. Desde nossa infância, papai e o professor nos repetem que é a coisa mais abominável que se possa conceber. Mas o que é trair? Trair é sair da ordem. Trair é sair da ordem e partir para o desconhecido. Sabina não conhece nada mais belo que partir para o desconhecido.
Inscreveu-se na Escola de Belas-Artes, mas não lhe era permitido pintar como Picasso. Era preciso então, obrigatoriamente, exercitar o que se chamava de realismo socialista, e na Escola de Belas-Artes fabricavam-se retratos dos chefes de Estado comunistas. Seu desejo de trair o pai continuava irrealizado, pois o comunismo não era senão outro pai, igualmente severo e limitado, que proibia não só o amor (a época era de puritanismo) mas também Picasso. Casou-se com um medíocre ator de Praga, só porque este tinha reputação de excêntrico, e porque os dois pais julgavam-no inaceitável. Depois sua mãe morreu. No dia seguinte, voltando a Praga depois do enterro, recebeu um telegrama: seu pai suicidara-se de desgosto.
O remorso tomou conta dela: seria tão errado da parte de seu pai pintar rosas num vaso e não amar Picasso? Seria tão condenável temer que a filha aos quatorze anos ficasse grávida? Seria
ridículo não ter conseguido viver sem sua mulher?
Mais uma vez, estava possuída pelo desejo de trair: trair sua traição inicial. Anunciou ao marido (não via mais nele um excêntrico, mas sobretudo um bêbado incômodo) que iria deixálo.
Mas se traimos B., por quem tínhamos traído A., isso não quer dizer que vamos nos reconciliar com A. A vida do artista de quem se divorciara não se parecia com a vida de seus pais traidos. A primeira traição é irreparável, ela provoca, numa reação em cadeia, outras traições das quais cada uma nos distancia cada vez mais do motivo da traição inicial.

[...] De perto ou de longe todo mundo estaria olhando; era preciso, de uma maneira ou de outra,
representar uma comédia diante de todo mundo; em vez de ser Sabina, ela seria forçada a representar o papel de Sabina e a descobrir a maneira de representá-lo. O amor oferecido ao
público como um alimento ganhava peso e tornava-se um fardo. Só de pensar nisso curvava-se, por antecipação, sob esse peso.
Estava ainda em plena confusão e não sabia se devia ou não ficar contente. Pensou no encontro deles no vagão-leito do trem de Amsterdã. Tivera vontade, naquele dia, de se jogar a seus pés, suplicando-lhe que ficasse com ela, de qualquer maneira, e que nunca mais a deixasse partir. Naquela noite, quis acabar de uma vez por todas com essa perigosa viagem de traição em traição. Teve vontade de parar.
O que é viver na verdade? Uma definição negativa é fácil: é não mentir, não se esconder, não dissimular nada.
Para Sabina, viver na verdade, é mentir nem para si nem para os outros, só seria possível se vivêssemos sem público. Havendo uma única testemunha de nossos atos, adaptamo-nos
de um jeito ou de outro aos olhos que nos observam, e nada mais do que fazemos é verdadeiro. Ter um público, pensar no público, é viver na mentira. Sabina despreza a literatura em que o autor revela toda a sua intimidade, e também a de seus amigos. Quem perde sua própria intimidade perde tudo, pensa Sabina. E quem a ela renuncia conscientemente é um monstro. Por isso Sabina não sofre por ter de esconder seu amor. Ao contrário, para ela esta é a única forma de viver na verdade.
Franz é forte, mas sua força é voltada unicamente para o exterior. Com as pessoas com quem vive, com aqueles que ama, é fraco. A fraqueza de Franz se chama bondade.
Franz jamais daria ordens a Sabina. Nunca mandaria - como Tomas fizera em outros tempos - que ela ficasse inteiramente nua em cima de um espelho e se pusesse a andar de um lado para o outro. Não que lhe falte sensualidade, mas ele não tem força para comandar. Existem coisas que só podem ser conseguidas com violência. O amor físico é impensável sem violência.
Sabina continuava com suas reflexões melancólicas.
Disse: - Por que de vez em quando você não usa sua força contra mim? - Porque amar é renunciar à força - respondeu Franz docemente.
Sabina compreendeu duas coisas: primeiro, que essa frase era bela e verdadeira. Em segundo lugar, que, com essa frase, Franz acabara de excluir-se de sua vida erótica.


*Uma pergunta me lembrou dessas partes do livro do Kundera hoje.





























O que é a sedução? Pode-se dizer que é um comportamento que deve dar a entender que uma aproximação sexual é possível, sem que essa eventualidade possa ser entendida como uma
certeza. Em outras palavras, a sedução é uma promessa de sexo, mas uma promessa sem garantia.
Tereza está de pé atrás do balcão do bar e os clientes a quem serve bebidas fazem-lhe propostas. Será que acha desagradável esse assédio contínuo de elogios, de subentendidos, de histórias maliciosas, convites, sorrisos e olhares? De maneira nenhuma. Sente um desejo incontrolável de oferecer seu corpo (esse corpo que ela gostaria de banir para longe), de oferecê-lo a essa ressaca.
Tomas não pára de tentar persuadi-la de que entre o amor e o ato do amor são dois mundos diferentes. Ela se recusava a admiti-lo. Agora está cercada de homens que não lhe inspiram a menor simpatia. Que sensação lhe daria dormir com um deles? Tem vontade de experimentar, nem que seja sob essa forma de promessa sem compromisso que é a sedução.
Não nos enganemos, não quer se vingar de Tomas. Procura uma saída para o labirinto. Sabe que é um peso para ele: leva as coisas muito a sério, vê tudo pelo lado trágico, não consegue entender a leveza e a futilidade alegre do amor físico. Como gostaria de aprender a leveza! Queria que a ensinassem a não ser anacrônica!




















[...] De perto ou de longe todo mundo estaria olhando; era preciso, de uma maneira ou de outra,
representar uma comédia diante de todo mundo; em vez de ser Sabina, ela seria forçada a representar o papel de Sabina e a descobrir a maneira de representá-lo. O amor oferecido ao
público como um alimento ganhava peso e tornava-se um fardo. Só de pensar nisso curvava-se, por antecipação, sob esse peso.
Estava ainda em plena confusão e não sabia se devia ou não ficar contente. Pensou no encontro deles no vagão-leito do trem de Amsterdã. Tivera vontade, naquele dia, de se jogar a seus pés, suplicando-lhe que ficasse com ela, de qualquer maneira, e que nunca mais a deixasse partir. Naquela noite, quis acabar de uma vez por todas com essa perigosa viagem de traição em traição. Teve vontade de parar.
Voltaram para o hotel no meio da animação da noite.
Sabina fez sua toalete no banheiro bem devagar, despiu-se e olhou por longos minutos no espelho do quarto de hotel. Enquanto Franz a esperava embaixo das cobertas da estreita cama de casal. Como sempre, havia uma pequena lâmpada acesa.
Voltando do banheiro, desligou o interruptor. Era a primeira vez que fazia isso. Franz deveria ter desconfiado desse gesto. Não deu importância para ele a luz não tinha a menor importância. Durante o amor, como sabemos, ele fechava os olhos. É justamente por causa dos olhos fechados que Sabina apaga a luz. Não quer mais ver, nem por um segundo, essas pálpebras fechadas. Os olhos, como se diz, são a janela da alma. O corpo de Franz debatendo-se sobre ela com os olhos fechados é para ela um corpo sem alma. Parece um pequeno animal, ainda cego,
emitindo sons chorosos por que tem sede.
Não, não quer nunca mais vê-lo debater-se desesperadamente sobre ela, hoje é a última vez, irrevogavelmente a última!
Sem dúvida nenhuma, sabia que sua resolução apenas de como ele era na cama era a maior das injustiças, que Franz era inteligente, entendia seus quadros, era bom, honesto, bonito, mas, quanto mais reconhecia suas qualidades, mais tinha vontade de violar essa inteligência, essa força débil.
Amou-o nessa noite com mais ardor que nunca, excitada com a idéia de que seria a última vez. Amava-o e já estava em outro lugar, longe dali. Já ouvia soar ao longe a trombeta de ouro da
traição e sabia ser incapaz de resistir a essa voz. Parecia que diante dela se abria um espaço de liberdade ainda imenso, e a imensidão desse espaço a excitava.
Um sobre o outro, ambos cavalgavam. Iam ambos em direção às distâncias que desejavam. Aturdiam-se ambos numa traição que os libertava.
Franz cavalgava Sabina e traía sua mulher, Sabina cavalgava Franz e traía Franz.





















O que é viver na verdade? Uma definição negativa é fácil: é não mentir, não se esconder, não dissimular nada.
Para Sabina, viver na verdade, é mentir nem para si nem para os outros, só seria possível se vivêssemos sem público. Havendo uma única testemunha de nossos atos, adaptamo-nos
de um jeito ou de outro aos olhos que nos observam, e nada
mais do que fazemos é verdadeiro. Ter um público, pensar no público, é viver na mentira. Sabina despreza a literatura em que o autor revela toda a sua intimidade, e também a de seus amigos.
Quem perde sua própria intimidade perde tudo, pensa Sabina. E quem a ela renuncia conscientemente é um monstro. Por isso Sabina não sofre por ter de esconder seu amor. Ao contrário, para ela esta é a única forma de viver na verdade .





















Estava espremida num canto do compartimento, a pesada mala
acima da cabeça, Karenin encolhida a seus pés. Pensava no
cozinheiro do restaurante onde estivera empregada quando
morava com a mãe. Ele não perdia uma oportunidade de dar-lhe
uma palmada nas nádegas e mais de uma vez, diante de todo
mundo, convidara-a para dormir com ele. Era estranho que
agora pensasse nele. Ele encarnava para ela tudo o que lhe
repugnava. Mas, no momento, só tinha um idéia, encontrá-lo
novamente e dizer:
-Você dizia que queria dormir comigo. Bem, aqui estou!

Tinha vontade de fazer alguma coisa que a impedisse de voltar
para Tomas. Tinha vontade de destruir brutalmente todo o
passado de seus sete últimos anos.
Era a vertigem. Um atordoamento, um insuportável desejo de cair.
Eu poderia dizer que a vertigem é a embriaguez causada pela
nossa própria fraqueza. Temos consciência da nossa própria
fraqueza mas não queremos resistir a ela e nos abandonar.
Embriagamo-nos com nossa própria fraqueza, queremos ser
mais fracos ainda, queremos desabar em plena rua, à vista de
todos, queremos estar no chão, ainda mais baixo que o chão.
Tentava persuadir-se de que não ficaria em Praga e de que não
trabalharia como fotógrafa. Voltaria para a pequena cidade de
onde a voz de Tomas a arrancara.
Assim, no fim de cinco dias Tomas subitamente apareceu no
apartamento.
Estavam os dois um em frente ao outro, no meio de uma planície
gelada e tremiam de frio.
Perguntou:
-Tudo bem?
-Sim.
-Você esteve no jornal?
-Telefonei.
-E aí?
-Nada. Esperava.
-O quê?
Ela não respondeu.
Não podia dizer-lhe que era por ele que esperava.





























Aquele que deseja continuamente "elevar-se" deve esperar um.
dia pela vertigem. O que é a vertigem? O medo de cair? Mas por
que sentimos vertigem num mirante cercado por uma
balaustrada sólida? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a
voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o
desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados.

As infidelidades de Tomas lhe revelavam de
repente sua impotência, e desse sentimento de impotência nascia
a vertigem, um imenso de sejo de cair.

No mesmo dia caiu na rua; seu passo tornou-se hesitante; caía quase todos os dias,
esbarrava nas coisas ou, na melhor das hipóteses, deixava cair
todos os objetos que tinha nas mãos.
Sentia um desejo irresistível de cair. Vivia numa vertigem
contínua.
Quem cai diz: -Levante-me!
Pacientemente, Tomas a levantava.

Sentia-se atraida por essa fraqueza como por uma vertigem.
Sentia-se atraida porque ela mesma se sentia fraca. Estava de
novo com ciúmes e suas mãos começaram a tremer. Tomas
percebeu e fez um gesto familiar: tomou-lhe as mãos para
acalmá-la com uma leve pressão dos dedos. Ela fugiu.
-O que é que você está sentindo?
-Nada.
-O que é que posso fazer por você?
-Quero que você fique velho. Dez anos mais velho. Vinte anos
mais velho!
Com isso queria dizer: quero que você fique fraco. Que você
seja tão fraco quanto eu.




















Nos sonhos, não havia nada a decifrar. A acusação que faziam a
Tomas era tão evidente que ele era forçado a calar-se e a
acariciar, cabisbaixo, a mão de Tereza.
Esses sonhos eram eloqüentes, mas, além disso, eram belos.
Esse é um aspecto que escapou a Freud na sua teoria dos sonhos.
O sonho não é apenas uma comunicação (às vezes uma
comunicação codificada), é também uma atividade estética, um
jogo da imaginação, e esse jogo tem em si mesmo um valor. O
sonho é a prova de que imaginar, sonhar com aquilo que nunca
aconteceu. é uma das mais profundas necessidades do homem.
Eis aí a razão do pérfido perigo que se esconde no sonho. Se não
fosse belo, o sonho poderia ser rapidamente esquecido. Mas ela
voltava incessantemente a seus sonhos; repetia-os em
pensamento, transformando-os em histórias fantásticas. Tomas
vivia sob o encanto hipnótico da beleza angustiante dos sonhos
de Tereza.

- Tereza, querida Tereza, parece que você se afasta de mim.
Aonde quer ir? Todos os dias você sonha com a morte, como se
realmente quisesse partir...
disse-lhe um dia, à mesa de um
bar.
A luz do dia, a razão e a vontade retomavam o comando.
Olhava para ele com amor, mas temia a noite que ia chegar,
tinha medo de seus sonhos. Sua vida partira-se em duas.

A noite e o dia disputavam o poder sobre ela.

Tenho sempre diante dos olhos Tereza sentada sobre um tronco, acariciando a cabeça de Karenin, e pensando no desvio da humanidade. Ao mesmo tempo, surge para mim uma outra imagem:
Nietzsche está saindo de um hotel em Turim. Vê diante de si um cavalo, e um cocheiro espancando-o com um chicote. Nietzsche se aproxima do cavalo, abraça-lhe o pescoço, e sob o olhar do cocheiro, explode em soluços.

Isso aconteceu em 1889, e Nietzsche já estava também distanciado dos homens. Em outras palavras: foi precisamente nesse momento que se declarou sua doença mental. Mas, para mim, é justamente isso que confere ao gesto seu sentido profundo.
Nietzsche veio pedir ao cavalo perdão por Descartes. Sua loucura (portanto seu divórcio da humanidade) começa no instante em que chora sobre o cavalo.

É Nietzsche que amo, da mesma forma que amo Tereza, acariciando em seus joelhos a cabeça de um cachorro mortalmente doente. Vejo-os lado a lado: "senhora e proprietária da natureza", prossegue sua marcha para a frente.

Tereza acaricia a cabeça de Karenin, que descansa tranqüilamente em seus joelhos. Faz mais ou menos este raciocínio: não existe nenhum mérito em sermos corretos com nossos semelhantes.
Tereza é forçada a ser correta com os outros moradores da aldeia, ou não poderia viver ali; e, mesmo com Tomas, é obrigada a se portar como mulher amorosa, pois precisa dele.

Nunca se poderá determinar com certeza total em que medida nosso relacionamento com o outro é o resultado de nossos sentimentos, de nosso amor, de nosso não-amor, de nossa complacência, ou de nosso ódio, e em que medida ele é determinado de saída pelas relações de força entre os indivíduos.


No começo do Gênese está escrito que Deus criou o homem para reinar sobre os pássaros, os peixes e os animais.
É claro, o Gênese foi escrito por um homem e não por um cavalo.
Nada garante que Deus desejasse realmente que o homem reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável que usurpou da vaca e do cavalo. O direito de mata um veado ou uma vaca é a única coisa sobre a qual a humanidade inteira manifesta acordo unânime, mesmo durante as guerras mais sangrentas.

Esse direito nos parece natural porque somos nós que estamos no alto da hierarquia. Mas bastaria que um terceiro entrasse no jogo, por exemplo, um visitante de outro planeta a quem Deus tivesse dito: "Tu reinarás sobre as criaturas de todas as outras estrelas", para que toda a evidência do Gênese fosse posta em dúvida. O homem atrelado à carroça de um marciano - eventualmente grelhado no espeto por um habitante da Via-láctea - talvez se lembrasse da costeleta de vitela que tinha o hábito de cortar em seu prato. Pediria então (tarde demais) desculpas à vaca.
Deus encarregou o homem de reinar sobre os animais, mas podemos explicar isso dizendo que ele apenas emprestou ao homem esse poder. O homem não era o proprietário mas apenas o gerente do planeta, e um dia teria de prestar contas de sua gestão.
Descartes deu um passo decisivo: fez do homem "maître et propriétaire de la nature". Que seja precisamente ele quem nega de maneira categórica que os animais tenham alma, eis aí uma enorme coincidência. O homem é senhor e proprietário, enquanto o animal, diz Descartes, não passa de um autômato, uma máquina animada, uma machina animata. Quando um animal geme, não é uma queixa, é apenas o ranger de um mecanismo que funciona mal. Quando a roda de uma charrete range, isso não quer dizer que a charrete sofra, mas apenas que ela não está lubrificada. Devemos interpretar da mesma maneira os gemidos dos animais, e é inútil lamentar o destino de um cachorro que é dissecado vivo num laboratório.
O mundo deu razão a Descartes.


A janela dava para uma encosta coberta de macieiras retorcidas pelo tempo.
No topo da encosta, uma floresta cortava o horizonte, uma lua branca apontava no céu pálido, era o momento em que Tereza aparecia na soleira da porta.
A lua suspensa no céu, ainda não inteiramente escuro, era como uma lâmpada que tivessem durante o dia todo no quarto dos mortos.


Um francês é diferente do outro.
Mas todos os atores do mundo se parecem – em Paris, Praga, e até mesmo no mais modesto teatro do interior.
É ator aquele que aceita, desde a infância, expor sua vida a um público anônimo.
Sem esse consentimento fundamental – que nada tem a ver com o talento, que é algo mais profundo do que o talento – não se pode ser ator.


Tomas não suportava esses sorrisos, que pareciam estar em todos os lugares, mesmo na rua, no rosto dos desconhecidos.
Não conseguia dormir. Por que? Será que dava tanta importância a essas pessoas?
Absolutamente.
Não as tinha em bom conceito e ficava com raiva de se deixar perturbar pelos seus olhares.
Não havia nada de lógico nisso. Como é que podia ficar dependendo da opinião de pessoas que considerava tão limitadas?

A história de Édipo é bem conhecida: um pastor, tendo encontrado um recém-nascido abandonado, levou-o ao rei Pólibo, que o criou.
Quando Édipo cresceu, encontrou num caminho das montanhas uma carruagem em que viajava um príncipe desconhecido. Os dois se desentenderam e Édipo matou o príncipe.
Mais tarde casou-se com a rainha Jocasta e tornou-se rei de Tebas.
Não suspeitava que o homem que tempos atrás assassinara nas montanhas era seu pai, e que a mulher com quem dormia era sua mãe.
Enquanto isso a má sorte perseguia seus súditos, dizimando-os com doenças.
Quando Édipo compreendeu que era o único culpado por esses sofrimentos, furou os olhos com espinhos e, cego para sempre, partiu de Tebas.


Tomas não pára de tentar persuadi-la de que entre o amor e o ato do amor há uma grande diferença. Ela recusa-se a admiti-lo.
No momento está cercada de homens que não lhe inspiram a menor simpatia. Que sensação lhe daria dormir com esses homens? Tem vontade de experimentar, nem que seja sob essa forma de promessa sem compromisso que é o flerte.

Se para outras mulheres o flerte é uma segunda natureza, uma rotina insignificante, para ela, doravante, é um campo de investigações importante que deve ajudá-la a descobrir aquilo de que é capaz. Mas por ser tão importante, tão grave, seu desejo de agradar perdeu toda a leveza, tornou-se forçado, intencional, excessivo.

Está muito inclinada a prometer, sem mostrar de maneira suficientemente clara que sua promessa não a obriga a nada. Ou por outra, todo mundo pensa que ela é extraordinariamente fácil. Depois, quando os homens reclamam a realização daquilo que lhes tinha sido prometido, esbarram numa súbita resistência que só podem explicar pela crueldade requintada de Tereza.

Franz é forte, mas sua força é voltada unicamente para o exterior.
Com as pessoas com quem vive, com aqueles que ama, é fraco.
A fraqueza de Franz se chama bondade.
Franz jamais daria ordens a Sabina. Nunca mandaria - como Tomas fizera em outros tempos - que ela ficasse inteiramente nua em cima de um espelho e se pusesse a andar de um lado para o outro. Não que lhe falte sensualidade, mas ele não tem força para comandar.
Existem coisas que só podem ser conseguidas com violência.
O amor físico é impensável sem violência.

Sabina via Franz andar pelo quarto carregando bem alto a cadeira pesada para exibir sua força. A cena parecia-lhe ridícula e a enchia de estranha tristeza.

Sabina continuava com suas reflexões melancólicas. E se ela tivesse um homem que lhe desse ordens? Que a dominasse? Quanto tempo ela o teria suportado?
Nem cinco minutos!
Donde concluiu que nenhum homem lhe convinha.
Nem forte, nem fraco.

Disse: - Por que de vez em quando você não usa sua força contra mim?
- Porque amar é renunciar à força - respondeu Franz docemente.

Sabina compreendeu duas coisas: primeiro, que essa frase era bela e verdadeira. Em segundo lugar, que, com essa frase, Franz acabara de excluir-se de sua vida erótica.


Os cemitérios da Boêmia parecem jardins. Os túmulos são cobertos de relva e de cores vivas.
Monumentos humildes ficam escondidos no meio do verde da folhagem.
À noite, o cemitério fica cheio de pequenas velas acesas, como se os mortos estivessem dando um baile infantil.
É, um baile infantil, pois os mortos são inocentes como as crianças.

Por mais cruel que tenha sido a vida, no cemitério existe sempre a mesma serenidade.
Durante a guerra, sob Hitler, sob Stalin, sob todas as ocupações. Quando se sentia triste, pegava seu carro para ir passear longe de Praga num de seus cemitérios preferidos.
Esses cemitérios campestres no fundo azulado das colinas eram tão belos quanto uma cantiga de ninar.

Mas para Franz, um cemitério não passa de um imundo depósito de ossos e pedras.


Era noite e ela andava com passo apressado na plataforma da estação. O trem para Amsterdã já estava à espera.
Procurava seu vagão.
Abriu a porta do compartimento para onde fora conduzida por um amável funcionário e viu Franz sentado num dos leitos. Levantou-se para recebê-la, ela tomou-o nos braços e cobriu-o de beijos.
Tinha vontade de dizer-lhe, como a mais comum das mulheres: não me deixe, me guarde perto de você, me escravize, seja forte! Mas eram palavras que não podia e não sabia pronunciar.
Quando ele afrouxou o abraço ela apenas disse: -Como estou contente de estar com você! - Com sua natural discrição não podia dizer mais do que isso.


A traição.
Desde nossa infância, papai e o professor nos repetem que é a coisa mais abominável que se possa conceber.
Mas o que é trair?
Trair é sair da ordem e partir para o desconhecido.
Sabina não conhece nada mais belo que partir para o desconhecido.


Compreendeu que fazia parte dos fracos, do lado dos fracos, do país dos fracos, e que deveria ser fiel a eles, justamente porque eram fracos e procuravam recobrar o fôlego entre as frases.
Sentia-se atraída por essa fraqueza como por uma vertigem. Sentia-se atraída porque ela mesma se sentia fraca.
Estava de novo com ciumes e suas mãos começaram a tremer. Tomas percebeu e fez um gesto familiar: tomou-lhe as mãos para acalmá-la com uma leve pressão dos dedos.
Ela fugiu.

- O que é que você está sentindo?
- Nada.
- O que é que posso fazer por você?
- Quero que você fique velho. Dez anos mais velho. Vinte anos mais velho!

Com isso queria dizer: quero que você fique fraco. Que você seja tão fraco quanto eu.

Mas era justamento o fraco que deveria saber ser forte e partir, quando o forte é fraco demais para poder ofender o fraco.



(Hoje, mergulhei completamente nesse trecho dessa parte do livro )