
[...] De perto ou de longe todo mundo estaria olhando; era preciso, de uma maneira ou de outra,
representar uma comédia diante de todo mundo; em vez de ser Sabina, ela seria forçada a representar o papel de Sabina e a descobrir a maneira de representá-lo. O amor oferecido ao
público como um alimento ganhava peso e tornava-se um fardo. Só de pensar nisso curvava-se, por antecipação, sob esse peso.
Estava ainda em plena confusão e não sabia se devia ou não ficar contente. Pensou no encontro deles no vagão-leito do trem de Amsterdã. Tivera vontade, naquele dia, de se jogar a seus pés, suplicando-lhe que ficasse com ela, de qualquer maneira, e que nunca mais a deixasse partir. Naquela noite, quis acabar de uma vez por todas com essa perigosa viagem de traição em traição. Teve vontade de parar.
Voltaram para o hotel no meio da animação da noite.
Sabina fez sua toalete no banheiro bem devagar, despiu-se e olhou por longos minutos no espelho do quarto de hotel. Enquanto Franz a esperava embaixo das cobertas da estreita cama de casal. Como sempre, havia uma pequena lâmpada acesa.
Voltando do banheiro, desligou o interruptor. Era a primeira vez que fazia isso. Franz deveria ter desconfiado desse gesto. Não deu importância para ele a luz não tinha a menor importância. Durante o amor, como sabemos, ele fechava os olhos. É justamente por causa dos olhos fechados que Sabina apaga a luz. Não quer mais ver, nem por um segundo, essas pálpebras fechadas. Os olhos, como se diz, são a janela da alma. O corpo de Franz debatendo-se sobre ela com os olhos fechados é para ela um corpo sem alma. Parece um pequeno animal, ainda cego,
emitindo sons chorosos por que tem sede.
Não, não quer nunca mais vê-lo debater-se desesperadamente sobre ela, hoje é a última vez, irrevogavelmente a última!
Sem dúvida nenhuma, sabia que sua resolução apenas de como ele era na cama era a maior das injustiças, que Franz era inteligente, entendia seus quadros, era bom, honesto, bonito, mas, quanto mais reconhecia suas qualidades, mais tinha vontade de violar essa inteligência, essa força débil.
Amou-o nessa noite com mais ardor que nunca, excitada com a idéia de que seria a última vez. Amava-o e já estava em outro lugar, longe dali. Já ouvia soar ao longe a trombeta de ouro da
traição e sabia ser incapaz de resistir a essa voz. Parecia que diante dela se abria um espaço de liberdade ainda imenso, e a imensidão desse espaço a excitava.
Um sobre o outro, ambos cavalgavam. Iam ambos em direção às distâncias que desejavam. Aturdiam-se ambos numa traição que os libertava.
Franz cavalgava Sabina e traía sua mulher, Sabina cavalgava Franz e traía Franz.











