
Se Shakespeare nunca houvesse existido, perguntou-se, seria hoje o mundo muito diferente do que é? Será que o progresso da civilização depende dos grandes homens? Seria o destino do ser humano médio melhor hoje do que no tempo dos faraós? Contudo, continuou se indagando, será o destino do ser humano médio o critério para julgarmos a civilização?
Possivelmente não. Possivelmente o bem-estar da humanidade exige a existência de uma classe de escravos. O ascensorista do metrô é uma necessidade eterna.
Esse pensamento lhe foi desagradável. Sacudiu a cabeça. Para evitálo, acharia algum mode de se opor à superioridade das artes. Argumentaria que o mundo existe para o ser humano médio, que as artes são mero adorno imposto à vida humana e que não a expressam.
Nem Shakespeare é necessário. Sem saber precisamente por que queria desprezar Shakespeare e chegar à libertação daquele homem que fica eternamente à porta do elevador, arrancou bruscamente uma folha da sebe como um homem que se estica, no seu cavalo, para pegar um ramo de rosas ou encher os bolsos com nozes, trotando à vontade através das planícies e campos de um lugar conhecido desde a infância. Tudo lhe era familiar; essa curva, essa cancela, aquele atalho através dos campos. Passaria horas seguidas numa noite pensando assim, com seu cachimbo, vagando de um lado para o outro nas velhas e familiares planícies e pastos, que identificava pela história de uma campanha aqui, a vida de um homem de Estado mais adiante, por poemas e anedotas, e também por figuras ilustres, por este pensador, aquele soldado; tudo muito rápido e claro; mas por fim a planície, o campo, o pasto, a nogueira cheia de frutos e a sebe florida o levavam além da curva da estrada, onde sempre desmontava do cavalo, amarrava-o a uma árvore e prosseguia a pé, sozinho.
Era seu poder, seu dom, dispersar todas as superficialidades, encolher e diminuir, parecendo mais despojado e se sentindo até fisicamente poupado, sem contudo perder nada da intensidade de sua mente. Permanecendo de pé ali, naquela ponta de terra, voltado para a escuridão da ignorância humana, pensava que nada sabemos e em como o mar corrói o solo onde estamos - era esse seu destino, de todos os gestos e superficialidades, todos os troféus de nozes e rosas, tendo mirrado tanto, que se esquecera de seu próprio nome, manteve, mesmo naquele deserto, uma vigilância que não dispensava nenhuma imagem, nem se dispersava em visão alguma.
- Mas o pai de oito filhos não tem outra alternativa... - murmorou a meia voz. Deteve-se, voltou-se, suspirou e, erguendo os olhos, procurou a figura de sua esposa contando histórias para seu filho pequeno; encheu o cachimbo. Fugiu à visão da ignorância humana, do destino humano e do mar corroendo a terra onde pisamos, e que, fosse ele capaz de encarar fixamente, talvez tivesse levado a algum resultado; e econtrou consolo em insignificâncias tão pequenas, se comparadas com o magnífico tema que tivera diante dos olhos ainda há pouco, que se sentiu inclinado a reprovar esse consolo, desvalorizá-lo, como se o fato de ser apanhado feliz num mundo de misérias, para um homem honrado, constituísse o mais desprezível dos crimes. Era verdade; ele era quase completamente feliz; tinha sua esposa; tinha seus filhos; prometera que dali a seis semanas diria "algumas tolices" aos jovens de Cardiff sobre Locke, Hume, Berkeley e as causas da Revolução Francesa.
Mas isso, e o prazer que lhe proporcionava, as frases que compunha, o ardor da juventude, a beleza de sua mulher - tudo tinha de ser desvalorizado e dissimulado sob a frase "dizer tolices", porque, com efeito, não fizera o que poderia ter feito. Era um disfarce; era o refúgio de um homem que temia se apoderar de seus próprios sentimentos, que não podia dizer: É disso que eu gosto, é isto o que sou; e isso parecia bastante lastimável e desagradável a William Bankes e Lily Briscoe, que se perguntavam por que ele precisava dessas dissimulações, por que precisava sempre de elogios, por que um homem tão valente no terreno do pensamento era tão tímido na vida, e pensavam como ele era estranhamente respeitável e ridículo ao mesmo tempo.











