Acordei às sete da manhã e não podia, nem se quisesse, dormir de novo. Andava pensando como seria se *Anna Karênina, depois da tumultuada trama com Conde Vroski, escolhesse não pular em frente aquele trem... o que aconteceria se, depois de tudo, Anna tivesse a opção de retornar para o Karênin? Com certeza, não teria sido um final tão belo e trágico, mas porque não se contentar com esses frágeis restos de uma vida passada tornando-os algum dia suspiros de sonhos almejados? Com o tempo o passado ministrado com o presente poderia, quem sabe, se tornar uma grande mentira contada tantas vezes a ponto de se tornar a verdade manipulada.

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Alice tinha regressado do jantar, sentia-se fraca e não conseguia absorver tudo que lhe foi dito. Era fato que já sabia, secretamente, já sabia de cada palavra que havia saído aquela noite dos lábios de Caroline. Fez-se de ingênua para mostrar para Deus sabe quem que não se importava. Quando retornou sentiu uma fome não saciada, havia passado o dia todo com o almoço, mesmo assim não foi capaz de dizer, havia perdido a fome e nem percebia. Havia entregado todo o trabalho do corpo pra mente, queria ajudar Caroline, com todas as forças. Para isso escondeu todas as mortes, a da mãe, a do amor de Miguel e a de Amélia Passos. Caroline não precisava saber, não deveria saber, era preciso ser assim - es muss sein.
Agora, a vertigem contida estava estampada para todos. Caminhou pra casa, e como num lastro de um destino torto encontrou Miguel com meia garrafa de vinho na porta de sua casa. Não houve rodeios, ele disse exatamente tudo que deveria dizer, fez exatamente tudo que deveria fazer. Sempre soube ser o melhor amante com maestria.
Miguel era o verdadeiro pretérito mais que perfeito, tão distante e sempre de prontidão a dar mais do que o esperado. Não havia o que mudar no seu amor por Alice. Ele era melhor do que qualquer outro e ela sabia.
Não haveria nenhum outro como ele era, nenhum seria capaz de fazer o que ele fazia. Podia trazer a lua e as estrelas sem ela almejar ou pedir. Mas porque tamanho amor não a aquecia? Porque não a tocava?
Miguel não era capaz de ser, como pessoa, admirável... era ingênuo, na maioria das vezes, se passava por bobo perto dos outros. Defendia o que não sabia, falava demais sem medir as palavras, era todo coração.
Coração que se encontrava parado ali, de prontidão diante dela. Como seria reconfortante retribuir os sonhos de Miguel...
Não foi preciso tantas palavras, quando se deu conta, já estavam no quarto. Ele dizia tudo que qualquer mulher desejaria ouvir. Mas as doces palavras e juras de amor não eram retribuídas, mesmo assim, isso não o impedia de continuar... o amor é engraçado. Alice não podia ouvir, a porta da sua memória poética** estava fechada, por mais que Miguel batesse, era toda corpo.
Ele percebeu que ela não expressava as reações esperadas, sabia que ela nunca fora assim. Não disse nada, pelo contrário, acentuou as palavras, gestos, suspirou com mais amor. Buscou, inutilmente, trazer mais que as estrelas.
Alice não o impedia mas também não fazia nada, quando percebeu que aquilo tudo não era de desejo seu, se fechou num casulo compacto... e enquanto Miguel se esforçava para ascender a memória poética, ela se lembrava de Caroline... enquanto as mãos afagavam seus cabelos, ela recordava as de Caroline mais cedo segurando as suas firmemente e a empatia sentida pelos seus problemas... Logo, Alice sabia que ela iria partir e era preciso escutar, entender e deixar que fosse assim - es muss sein.
No meio de tantos pensamentos sentiu o membro rígido de Miguel se aproximar, aquila visão a chocou. Arruinava a peça e descaracterizava os personagens. Não pôde suportar mais, apertou os olhos em prantos, as lágrimas começaram a rolar... se tornou o que deveria ter sido desde o jantar mas não pode ser. A força finalmente se fora, virou mar.
Isso bastou para parar tudo, naquela noite ele soube que nada que dissesse ou fizesse tocaria a poesia, nada a faria voltar. Naquela noite ele também se fez mar.


*Romance de Leon Tólstoi
**Refere-se a um termo do livro A Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera