
Certo dia, buscou-me a Lua na janela, tão frágil banhada de novas cores. Mostrou-me que algumas de suas faces podiam ser tão alaranjadas quanto o sol. Tento entender o exato momento em que o escarlate tão fresco se misturou com tantas outras cores e se perdeu de vista... Tento entender tanta coisa enquanto espero, enquanto procuro pelo que espero.
Venho hoje, dentre tantos sonetos e preâmbulos, despedir-me da ideia de despedir de você. É que esse mesmo texto começou como um texto de despedida que nunca seria entregue. Não consigo, na verdade nunca desejei realmente, acreditava apenas que era preciso.
Nesse tempo, te senti como algo jovem, tão efêmero... como uma idealização sã. Um querer ser adormecido e acordado tão repentinamente por tantas notas e claves. Um poder ser que me virou do avesso ao sussurrar nos meus ouvidos: deve ser, é preciso ser, es muss sein - e como eu queria que fosse.
Confesso que você é pra mim algo tão leve e vivo de uma forma invejável, mas não é exatamente isso o que procuramos tentando despertar o amor? O que desejamos intimamente e não podemos ser?
Eu só procurava entender, não penso em nada além do que desejo ter e ainda me encaro desajeitada pensando se realmente tenho. Você não procurava, mas encontrava longos cabelos vermelhos, escondidos nas roupas e lençóis... brincando descuidados com aquela saudade mansa que faz sorrir.
Ainda não sei o que espero, penso que um sinal, um convite ou apenas mais um copo de vinho uma noite... Enquanto isso me afasto dos fantasmas, é uma batalha diária, confesso. Seria bom ter mais verbos para flexionar, menos esperas e inseguranças...
Sim, eu me sinto tão insegura, sua leveza me traz calma mas nosso silêncio sela um pacto com a insegurança aguçada por outros. Talvez a culpa seja apenas da distância atual, que repele e ao mesmo tempo fascina, mas a mim também confunde. Mistura cores e aromas.
Todos os dias em que ele bate a minha porta, só vejo mar. A insegurança me assombra, procuro por você, encontro seus lindos olhos na minha mente, me fitando de forma serena. Não sei o que dizer a eles, não sei o que esperar encontrar neles... Amor? Paixão? Não sei ainda que expressão eles tomariam com palavras tão fortes assim, mas sei que sinto algo ainda inominável, que pulsa sem compreender... um querer desenfreado tão limpo e sonoro pelas palavras desenhadas, desejadas no seu corpo.
Kundera me ensinou sobre a Leveza e o Peso, você me mostrou-os da forma mais crua que já pude ver. Comprou pincéis, cavalete e pediu-me para pintá-las em aquarelas nuas. Não deixei, mas como eu queria ter aquelas suaves noites pra procurar nos teus quadros agora.
Me sinto nesse momento tão leve, não lamento nada mais, nem me culpo - como sempre o fiz na sua frente. Apesar de tantas brisas breves, eu continuo me perdendo a procura de um porto seguro naqueles olhos, nas palavras que busco deles. Por que ainda se prolongam? Não vêem que espero?
Tento não importar, permaneço por aqui, quietinha, encolhida com os meus sonetos, ando carregando só os nomes que você me deu.
Soube que a lua não visita sua janela há um tempo, que seus lençóis foram limpos e estão pesados. Eu senti suas correntes antigas com um arrepio gelado.
Ninguém esperava, mas permaneci imune, é uma empatia tão forte e singela a que sinto. Eu te compreendia, ainda compreendo... compreendo até seus fantasmas.
Quanto aos meus, me arrastam por aqui, desidratam até os ossos... confesso ter buscado seu nome muitas vezes para desautorizá-los, desmembrá-los... Mas me sinto tão perdida, os poetas já não trazem tantas respostas.
Confesso ainda ter caminhado por campos literários em que nunca fui chamada, talvez pelo desejo de não sentir mais esse medo seco, nem essa coragem falha. Nessas noites trêmulas, senti uma tremenda falta de chão quando, finalmente, dei de frente com histórias que não me pertenciam. O resto veio como consequência, com uma brisa perdida sem nome.
Não associei mais, não quis pensar no que aqueles olhos me diriam. Não faz, nem nunca irá fazer, parte da leveza das cores que me fazem querer você, de tantas formas e tão bem.











