
Essa tarde andei pensando sobre a Tangerina e o Bagaço. Como as pessoas se confundem quanto a idealizações dos próprios fantasmas passados e como é fácil esquecer o que não faz parte deles.
O coração é algo engraçado, revive sentimentos maravilhosos, apaga o que não deveria ser lembrado e prega peças... insiste em (re)afirmar o que queremos mas já aprendemos que não devemos. Faz parecer tão simples e até mesmo belo. Até que um dia o que era fresco e firme murcha, só nos resta bagaços... pedaços desfeitos de começos perfeitos.
Andei lendo Sylvia Plath e me deparei com um trecho a respeito de tudo isso, Sylvia descreveu algo semelhante ao dizer que não é possível recomeçar a cada novo segundo. Que temos de julgar a partir do que já está morto. Como areia movediça, invencível desde o início...
Sim, o que está morto é invencível, mesmo assim, teimamos numa comparação onde só o passado ganha. Só há como vencer o passado renunciando o presente, renunciando seus fantasmas. É preciso voltar ao passado e descobrir se ele é maior do que todas as insatisfações que o fizeram se tornar um pretérito mais que perfeito, que só é perfeito nas armadilhas do coração.
Ah, mas como os mortos são repletos de ideais, como são amados! Tudo que é distante causa-nos uma intensa repulsa ou fascínio. Desvia-nos do novo, do desconhecido... Tão incerto. O passado é seguro, a segurança vence as insatisfações, apaga-as... Deixa-nos sorrisos dos começos e por fim, nostalgia.
Quando nos somos capazes de vencer o passado (quando é necessário que ele seja vencido) pode ser tão tarde.. a areia movediça não consta forças, se desfaz feroz sobre nossas cabeças.
Percebi quando vi que passei todo esse tempo fugindo, presa ao passado... e por fim, o relógio me anunciou as últimas badaladas.
Todos os medos, dúvidas e anseios que depositei sobre você, de repente recaíram sobre mim. Eu sei como é difícil... sei melhor do que ninguém. É maravilhoso reviver secretamente aquelas primaveras.
Portanto, se lhe restam dúvidas faça o que deve ser feito, vá buscar o que procura, viva o que ainda não foi resolvido. E.. se achar que deve retornar algum dia, volte... talvez eu ainda esteja por aqui...
Escolho não estar enquanto houver dúvidas, enquanto formos um remédio dos erros passados. Não porque eu não deseje o presente, eu o desejo, mais do que tudo. Mas o desejo como uma fina gaze diáfana, frágil mas clara... e tudo o que você tem me mostrado desde que abriu tumbas está prostrado, pesado.
Desejo es muss sein, sem fantasmas além de Bethoven.











