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About a Girl

Minha foto
"Nasci em 1992, no interior do estado. A dança-teatro e o cinema formaram meu primeiro imaginário: a palavra vinha como complemento das imagens. Quando descobri os livros, bem cedo, aceitei-os apenas como o lugar das palavras e das idéias, vendo as imagens a que remetiam ou sugeriam, como fantasmas imponderáveis e sem substância, descabidos, impróprios para aquele tipo de veículo. Quando me pedem que fale de mim mesma, sinto o incômodo, pergunto: que imagem devo projetar? Tenho tantas. Acho que a melhor para o caso é a que passo nos próprios posts, de alguém que escreve mas não acredita nos fantasmas das palavras, embora eles sejam inevitáveis. E a melhor forma de conviver sem temor com essas fantasias é jogar com elas, torná-las risíveis, desautorizá-las, de modo a evitar o poder técnico abusivo que tem quem escreve, para iludir o leitor."

Aos destinatários destas palavras

"Pra dilatarmos a alma
Temos que nos desfazer
Pra nos tornarmos imortais
A gente tem que aprender a morrer
Com tudo aquilo que fomos
E tudo aquilo que somos nós"


O Teatro Mágico

Quem lê

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Viagem Distorcida

Posted on 10:51 In:

Bom dia Otelo,
quanto tempo já se foi não?
Quantas feridas mal curadas e cartas manchadas estão espalhadas na minha cama.
Não posso depender só de você pra me curar, nem pra sanar minhas novas sextas-feiras...
É tudo muito novo e fresco, e sinceramente acho que tenho diabetes do pior nível.
Só não vamos para Roma tão rapidamente tudo bem? Eu ainda estou tomando alta medicação e não posso beber.
Mas eu adoraria muito beber com você e com todos de novo em Roma!
Tudo vai melhorar, não se preocupe... Açucar nunca foi meu forte, muito menos cicatrizações...
Só não adoce tanto a minha vida, senão Frances Farmer logo aparece com sua caixa vermelha recheada de cartas antigas de um passado que mesmo doloroso, me leva a muitas lembranças... só não sei dizer ainda se foram boas ou ruins.
Não, não ligue pra mim! Só não se esqueça de Roma sim?
E eu prometo que nunca mais esquecerei de ler Shakespeare para você.

Águas*

Posted on 16:57 In:

A mentira que eu disse
A desculpa que criei
o silêncio que fiz
O grito acima do tom
A gargalhada de deboche
O sono de olhos abertos.

Se rezei pensando em outra coisa
Se amei pensando em tomar cerveja
Se fiquei anônimo diante da acusação
Se ocultei desejos populares
Se não li a bíblia novamente
Se elogiei o presente desagradável.

Contando que eu não tenha sido mau
Contando que eu não tenha tido espasmos
Que eu nem tenha pensado no inferno da falsidade
Que o grau de loucura tenha sido natural
E o álcool somente passatempo.

Que tudo fique inerte no ar como antena sem sinal.
Nedasto e horrendo, fiz tudo sabendo que o fazia.
Ninguém viu... Apenas as coisas viram.
As coisas tem olhos.
... e os olhos das coisas pesam mais que o peso delas.




*Texto retirado do script da peça Judite Insone, que será apresentada no dia 10 de Julho. Não sei de quem é.

Codinome Beija-Flor

Posted on 16:41 In:

Pra que mentir
Fingir que perdoou?
Tentar ficar amigos sem rancor?
A emoção acabou.
Que coincidência é o amor,
A nossa música nunca mais tocou...

Pra que usar de tanta educação?
Pra destilar terceiras intenções?
Desperdiçando o meu mel
Devagarzinho, flor em flor
Entre os meus inimigos, beija-flor...

Eu protegi o teu nome por amor
Em um codinome, Beija-flor
Não responda nunca, meu amor
Pra qualquer um na rua, Beija-flor


Que só eu que podia
Dentro da tua orelha fria
Dizer segredos de liquidificador

Você sonhava acordada
Um jeito de não sentir dor
Prendia o choro e aguava o bom do amor
Prendia o choro e aguava o bom do amor...


É tão patético, mas ao mesmo tempo tão belo!
Essa euforia constante e a minha incrível falta de atenção com tudo a minha volta, os pensamentos aleatórios e quanto mais eu sei mais tudo me instiga, o tempo escorre rapidamente sobre as nossas mãos.
Meus Deus! Em que mundo estou?
Porque a praça feia e pichada parece tão bela e ensolarada?
Porque eu esqueci de comer no almoço de segunda?
E porque raios eu passei sabonete íntimo na cabeça no lugar de shampoo?
Tic-tac, tic-tac, tic-tac...
E um dia eu juro, irei jogar esse relógio da janela, e talvez só por hoje eu tome uma dosagem a mais do remédio de dormir...
Quem sabe assim o tempo não passa mais rápido?
Quem sabe assim eu volte a racionalidade e perceba que estou fazendo tudo tão errado... Mas porque parece tão certo?
"Ouse, ouse... ouse tudo!"
Tem toda razão Lou Salomé, esse tal de amor nunca deu certo com as meus pobres rabiscos sujos.

Perfect

Posted on 09:53 In:

Eu sei que nós somos apenas velho amigos
e nós não podemos simplesmente fingir
que pessoas que se amam corrigem erros.
Nós somos razões tão irreais
e não podemos evitar de sentir que alguma coisa foi perdida.

Mas por favor, você sabe que você é como eu
e da próxima vez eu prometo que seremos perfeitos.
Perfeitos,
perfeitos estranhos abaixo do limite
Amantes fora do tempo.
Memórias desatadas.

Tudo tão longe, e eu continuo sabendo quem você é
mas agora eu desejo saber quem eu era...

Anjo, você sabe que não é o fim,
nós sempre seremos bons amigos
e todas as cartas serão enviadas.

Então por favor, você sempre foi tão livre!
Você verá, eu prometo que nós seremos
perfeitos.
Perfeitos estranhos quando nos conhecemos.
Estranhos na rua e amantes enquanto dormimos.

Perfeitos.
Você sabe que precisou ser assim.
Nós sempre fomos tão livres...
E um dia juramos poder ter sido
perfeitos.

Apaguem as luzes.

Posted on 16:49 In:

A apreensão é constante, e aquela curiosidade...
Às vezes uma mistura de saudade com a beleza fútil dos seus olhos.
A respiração é lenta, morna, porém de repente para completamente... Se segura pra mais um mergulho nas suas cartas manchadas, na apreensão de todos os olhares... Porque não se cegam? Porque não se cansam? Porque me seguem? Por quê?
E de repente, respiro.
Tudo volta lento e morno, porque o que era não será mais... e o que foi faz tempo que deixou de ser.
Na verdade, aquele triste canto de violinos não me comove mais.
E todo esse barulho mórbido, só faz a forca sufocar ainda mais lentamente.
Porém incessante.
O amor não basta.




Fui ver o lindíssimo filme do Pedro Almodóvar, o Fale com Ela, e saí pensando num conto da Carson McCullers, em que um homem conta que, antes de amar de novo uma mulher, ele estava aprendendo a amar as pedras, as árvores, as nuvens... Nesse grande filme de Almodóvar, vemos amores raros, feitos de entrega, feitos de compaixão, como uma "doação ilimitada a uma completa ingratidão", como escreveu Drummond, aliás, o poeta do amor impossível, que é o único e verdadeiro amor.

A vitória do Lula também foi uma fome de amor política contra a era da técnica racionalista. Seu governo pode virar até um crime passional ou um folhetim melodramático, mas, hoje, é um grande desejo de happy end para todo o povo. Por isso, pergunto: onde anda o amor? Até isso o mercado estragou?
Sim. O amor já teve um toque sagrado, a magia de uma inutilidade deliciosa, já foi um desafio ao dia-a-dia que nos tirava da vida comum.

Hoje, o amor, como tudo, está perdendo a transcendência. Não existe mais o amante definhando de solidão, nem Romeus nem Julietas, nem pactos de morte, não existe mais o amor nos levando para uma galáxia remota, não existe mais a simbiose que nos transportava a uma eternidade semi-religiosa. O amor tinha uma fome de bondade, de compaixão pelo outro, de proteção à pessoa amada. Isso está acabando. O amor já foi analisado por todas as ciências, a psicanálise mapeou as loucuras que estão sob sua poética, o ritmo do tempo atual acelerou o amor, o dinheiro contabilizou o amor, matando seu mistério impalpável. Hoje, temos controle, sabemos por que "amamos", temos medo de nos perder no amor e fracassar no mercado. O amor pode atrapalhar a produção.

Por isso, o filme de Almodóvar é tão belo e oportuno. Temos de fazer filmes assim, cheios de amor, sem efeitos, sem denúncias. Se eu, um dia, filmar de novo, será para celebrar o silêncio dos amantes ou a beleza do inútil. O amor perdeu a gratuidade, as pessoas "amam" por desejo de ter um amor que não sentem mais. O amor não tem mais porto, não tem onde ancorar, não tem mais a família nuclear para se abrigar, não tem mais a utilidade do sacrifício pelo "outro". O amor ficou pelas ruas, em busca de objeto, esfarrapado, sem rumo. Não temos mais músicas românticas, nem o lento perder-se dentro de "olhos de ressaca", nem nas "pernas de Fulana", nem temos as bocas beijadas por amantes "tutti tremanti", nem o formicida com guaraná. Não se diz mais: "Deus sabe quanto amei!...", mas "Deus nem sabe quantos (as) amei..."

A publicidade devastou o amor, falando na "gasolina que eu amo" ("Shell que j'aime"), no sabonete que faz amar, na cerveja que seduz. Há uma obscenidade flutuando no ar o tempo todo, uma propaganda difusa do sexo impossível de cumprir. Como comer todas as moças da lingerie e do xampu, como atingir um orgasmo pleno e definitivo? A sexualidade total, por si só, levaria a uma assexualização desértica. A sexualidade é finita, não há mais o que inventar. Já o amor, não... O amor vive da incompletude e esse vazio justifica a poesia da entrega. Ser impossível é sua grande beleza. Claro que o amor é também feito de egoísmos, de narcisismos mas, ainda assim, ele busca uma grandeza - mesmo no crime de amor há um terrível sonho de plenitude. Amar exige coragem e hoje somos todos covardes.

Amor e sexo. Mas, hoje o mercado exige a satisfação total no amor ou o dinheiro de volta.

Como isso é impossível, deriva para o sexo ou para a sedução. O amor passa a buscar não mais uma entrega, mas um domínio. O amor vira um objeto de consumo, fast-love, com obsolescência programada para durar pouco. O amor deixa muito a desejar. Em geral, o amor existe hoje como uma espécie de adoçante para justificar, legitimar uma tesão ou uma conquista. Os amores duram três edições de Caras. Os casais se permutam num troca-troca rápido e quantitativo. As próprias mulheres estão virando dom-juans. Vejam o périplo de jovens atrizes que vão comendo, um por um, os modelos que surgem nas revistas, elas, que deviam se manter damas inatingíveis para pálidos quixotes românticos.

Estamos com fome de amor cortês, num mundo em que tudo perdeu aura. O terrível bombardeio que a cultura americana está fazendo nos sentimentos é invisível, mas é pior que as bombas contra o Iraque. A cultura americana está criando um desencantamento insuportável na vida social. Tudo é tolerável, num arrasamento de mistérios. Vejam a arte tratada como algo desnecessário, sem lugar, sem uso, vejam as mulheres amontoadas na internet, nuas, com números - basta clicar e chamar. Estamos com fome de infinito em tudo, na vida, na política, no sexo. Por isso, o filme de Almodóvar, cheio de compaixão sussurrada, apoiada na trêmula beleza dos balés de Pina Bausch e no Caetano cantando um pranto dolorido, parece um segredo religioso, uma saudade inexplicável de alguma coisa que existe aquém, antes da vida.

Nos anos 60, liberdade sexual foi uma questão política. Hoje, podemos tudo, podemos casar até com jacarés ou macacas, sem escândalos, desde que não prejudique a produção. Mas, o que invisivelmente está virando uma nova necessidade política é o amor e seus subprodutos: compaixão, paz, justiça.

Aposto que virá aí um novo "desbunde", um novo movimento hippie, sem utilidade, mas sem melancolia autodestrutiva, vêm aí marchas pelo amor, porque ninguém está agüentando mais somente "utilidade" e "desempenho", poder e sucesso. Estamos virando coisas. Precisamos aprender a amar de novo as pedras, as árvores, as nuvens, até chegarmos a nós mesmos... E acho que isso vai surgir na América, como foi nos anos 60 - a luta pelos direitos civis será agora a luta pela beleza da inutilidade.


Você volta assim tão de repente,
Me dá a sensação de que nada se perdeu nem nada se foi...
É como se o tempo que eu fiquei longe de você, não fosse tempo, não fosse nada, apenas algum estado vegetativo qualquer...
O que importa?
Eu estava mortamente feliz antes de você voltar, e eu poderia realmente fingir viver o resto da minha vida assim se não fosse por você, se não fosse por todas aquelas bebidas quentes, por todas as horas de conversas que são tão inutilmente importantes.
Porque você me ressuscitou?
Foi tão mais fácil te matar, foi tão mais fácil nos matarem...
KCl*, ninguém nunca descobrirá o culpado não é?
Mas tem algo além da morte, que não deixou que fôssemos embora de vez,
Algo além dessa ressurreição, além das mentiras e de todos os dias se afogando nas dúvidas e porquês que só me levaram a crer enfim, que a morte não é tudo.
É melhor que você seja o único que carrega a minha verdade, porque o resto do mundo realmente não importa mais...
Porque descobri que KCl não me mata, só me engrandece.

*KCl = O veneno bruto e liofilizado de Bothrops leucurus.


Quando a música termina,
Apagamos as luzes,
Apague as luzes!

Dance no fogo como você sempre sonhou,
A música é sua única companhia
Até o final.

Cancele a minha assinatura para a ressurreição
E mande minhas credenciais para aquela casa de detenção
Talvez lá ainda me restaram alguns amigos

O rosto no espelho não vai parar de se questionar
A garota na janela não vai pular

"Estamos VIVOS!" ele gritou
Antes que eu mergulhe
No grande sono e ele me convide pra entrar,
Eu quero ouvir
Todos os gritos que nos pertencem.

Quando a música termina,
Apagamos as luzes,
Apague as luzes!

Volte, querida.
Volte para os meus braços, ele disse.
Não está ficando cansada de esperar nossas cabeças rolarem no chão?

O que eles fizeram com a Terra?
O que eles fizeram com nossa honestidade?
Destruiram, roubaram, estriparam-na e deram mordidas
Enfiaram nela navalhas ao amanhecer
Amarraram-na com cercas e arrastaram-na para campos de contração.

Eu ouço sua canção
E nós queremos o mundo e nós queremos...
Agora?
Agora!

Então quando a música termina,
Apagamos as luzes,
Apague as luzes!
Apague as luzes e dance no fogo como sempre sonhou!
Até o fim
Até o fim...

A Verdade Dói

Posted on 17:57 In:

Trair?
Alguns toleram demais, outros de menos...
Eu sinceramente não sei em que caminho estou.
Mas o que é trair?
Segundo Milan Kundera:
"Trair é sair da ordem e partir para o desconhecido."
Ah... ele não conhece nada mais belo que partir para o desconhecido.
Como é livre!
-Isso machuca muito?- me perguntaram uma vez-
-Sufoca- respondi-
Talvez pelo fato de que somos todos espertos e sabemos muito bem o que fazer, porém o que há pra se fazer? Quando nossos desejos mais profundos nos indicam que também desejamos mais do que tudo partir para o desconhecido.
Viver nas sombras nos dá segurança, mas nunca aquele êxtase dos corajosos viajantes.
Já quis ser Lara, mas tenho sentimentos demais e um conceito muito fraco de solidão.
Eu tenho você e você tem a mim, e é assim que a máquina funciona, e é assim que nos sentimos desesperadamente seguros e protegidos...
até a verdade aparecer e furar nossa linda bolha de plástico, mesmo que de maneiras forçadas e sujas ela aparece.
Não, definitivamente não me orgulho de nenhum dos meus atos, mas minha criatividade, minhas impressões, me instigam a pesquisar tudo mais fundo e mais fundo, até cair num poço de verdade escura.
E a verdade realmente dói minha criança.


Todo invento da imaginação do ator deve ser minuciosamente elaborado e solidamente erguido sobre uma base de fatos.
Deve estar apto a responder a todas as perguntas (quando, onde, por quê, como) que ele fizer a si mesmo enquanto incita suas faculdades inventivas a produzir uma visão, cada vez mais definida, de uma existência de "faz-de-conta".
Algumas vezes não terá de desenvolver todo esse esforço consciente, intelectual. Sua imaginação pode trabalhar intuitivamente. Mas vocês mesmos já viram, por experiência própria, que não se pode contar com isso. Imaginar em geral, sem um tema bem definido e cabalmente fundamentado, é trabalho infrutífero.
Por outro lado, uma atitude consciente, arrazoada, para com a imaginação, produz, muitas vezes, uma apresentação falsificada e anêmica.
Para o teatro isso não serve.
Nossa arte requer que a natureza inteira do ator esteja envolvida, que ele se entregue ao papel, tanto de corpo como de espírito. Deve sentir o desafio à ação, tanto física quanto intelectualmente, porque a imaginação, carecendo de substância ou corpo, é capaz de afetar, por reflexo, a nossa natureza física, fazendo-a agir. Essa faculdade é da maior importância em nossa técnica de emoção.
Portanto: cada movimento que vocês fazem em cena, cada palavra que dizem, é resultado da vida certa das suas imaginações.
Se pronunciarem alguma fala ou fizerem alguma coisa, mecanicamente, sem compreender plenamente quem são, de onde vieram, por quê, o que querem, para onde vão e que farão quando chegarem lá, estarão representando sem a imaginação. Esse período, quer seja curto, quer longo, será irreal e vocês não passarão autômatos, de máquinas às quais se deu corda.
Se eu, agora, lhes perguntar uma coisa perfeitamente simples: -hoje faz frio?- antes de responder, mesmo com um "sim" ou "não faz frio", vocês, nas suas imaginações, terão de voltar à rua e lembrar como vieram, a pé, ou por algum transporte. Devem por à prova as suas sensações, recordando como estavam agasalhadas as pessoas que encontraram, como levantavam a gola, como a neve rangia sob os seus pés. E só então poderão responder à minha pergunta.
Se obedecerem, rigorosamente, a esta regra em todos os seus exercícios, pertençam ele à parte do noddo programa que pertencerem, verão como se desenvolvem e como ganham força as suas imaginações.

síndrome de munchausen

Posted on 10:27 In:

Ele tem síndrome de munchausen,
ele tem excesso de saliva
excesso de olhares.
Nunca necessitou que tudo mudasse,
sempre almejou os mesmos ares sem sabores.

Ele vive no excesso,
dia e segundos cronometrados
sempre se perguntando:
como escapar desse labirinto solitário?


No final de todas as suas grandes conquistas
tudo que ele irá desejar é ser puxado de volta
por aquele sedento cordão umbilical

Mas e os nossos velhos órgãos,
que apesar de tudo,
formaram um dia outros tipos de tecidos e cordões?

Nossa pequena conexão,
agora obstruída e seca,
é tão fraca que só sabe chorar.
Chora mansa e quieta, porque ninguém mais a vê
Chora as pressas para ter tempo de chorar
Porém ainda chora,
tem síndrome de munchausen.

Colcha de Retalhos

Posted on 14:09 In:

Não há mais sonetos, contos ou poesias no quarto.
No ventre das noites, ela só pensa em todas as suas antigas cartas, enterradas num baú infeliz em algum lugar.
Escondida na colcha velha e surrada, perto da janela, a lua cai com o grito do vento.
O óculos torto de aro preto se quebrou ao ouvir todas as canções da moça bonita de chapéu, que um dia cantou no pé daquela cama.
Por que ela não canta mais?
Pode ser que não haja nem ao menos amor, mas nos contetamos por não haver mais dor. Todas as lembranças de mágoa foram substituídas pela grande sensação de fracasso dos vários fracassos.
A colcha está repleta de falhas.
Adeus Sonetos!
O baú sumiu, a madeira que sobrou foi levada para a velha casinha na colina que pertencia a Lou Salomé e Nietzsche.
Lá algumas lembranças ainda vivem, assim como um dia viveremos conectados por mente e alma. Até que a morte nos separe, amém.
Os frutos de todas as nossas macieiras serão drenados em cada pequena palavra sábia gravada na madeira dos aposentos... perto do bosque.
Menos um soneto para aquela interminável colcha de retalho!
E assim, finalmente, Otelo matou Desdêmona.



A minha imaginação tem iniciativa?
Será sugestionável?
Desenvolver-se-á espontaneamente?

Estas perguntas não me deram trégua. Tarde da noite tranquei-me no quarto, instalei-me confortavelmente no sofá, rodeado de travesseiros, fehei os olhos e comecei a improvisar. Mas minha atenção distraiu-se com umas manchas coloridas, redondas, que ficavam passando diante das minhas pálpebras fechadas.
Apaguei a luz, julgando ser ela a causa dessas sensações.
Em que deveria pensar? Minha imaginação revelou-mee árvores numa grande floresta de piheiros, movendo-se com brandura e ritmo, sob uma brisa suave. Podia sentir o cheiro do ar fresco.
Por que... nesta serenidade toda... estou escutando o tique-taque de um relógio?
Eu tinha ferrado no sono!
Ora, está claro, compreendi, eu não devia imaginar coisas sem propósito.
Portanto, subi num avião, por sobre a copa das árvores, voando sobre elas, sobre os campos, rios, cidades... tique-taque, faz o relógio. Quem é esse, roncando? Não pode ser eu... será que cochilei?... será que dormi muito?... o relógio bate as oito...

Por trás das lentes é melhor.

Posted on 21:14 In:


Eu nunca entendi o que a música Frances Farmer Will Have Her Revenge On Seattle do Nirvana queria dizer quando no refrão Kurt lamenta: "Eu sinto falta do conforto de estar triste"
Na verdade, todos pensamos: é ele era um suicída, gostava de estar assim, não teve outro jeito né? melancólico forever novo emo.
Como somos estúpidos ao julgar alguém que tinha uma mente brilhante como a dessas pessoas.
Gênios que se afastaram tanto da realidade, desse mundo cheio de pessoas que não se permitem sentir nada de verdadeiro, um só segundo. Se culpam por tudo que fazem que pode não se encaixar nos padrões.
Por baixo das lentes manipuladores, Nietzsche foi considerado louco, e tudo começou quando chorou por um animal apanhando sem dó pelo seu dono. Tudo começou quando fez alguma coisa contra as pessoas que vivem dentro desse nosso padrão clichê de mesmice retrógrada.
As vezes tudo é tão forte, e tão real demais, que nos acostumamos com tudo e não podemos nem ao menos sentir de verdade nosso lamento com tudo a nossa volta que está errado. Todas as coisas que queremos mudar pra valer, que tentamos e fracassamos e tentamos novamente pra cair de novo, e de novo.
É mais fácil quando você é o estranho que não se encaixa, mas que pode facilmente fingir (Dumb - Nirvana). É fácil fingir ser como eles, mas é difícil quando você não consegue sair do mundo deles onde tudo é proibido, todos os sentimentos e expressões.
Era mais fácil me afogar em amargura do que não ser capaz de sentir mais.
No meu caso, eu ainda podia sonhar, e ir para um mundo onde nada era real, onde a moça de chapéu engraçado cantava belas histórias do lado da minha cama me fazendo dormir nos mais profundos e reais sonhos.
Voando dessa realidade contida com Kurt Cobain e Nietzsche.

E assim Perséfone* ainda sonha

Posted on 18:32 In:

"Eu não sei me conter, não é?
Dê-me vinho, eu bebo tudo e jogo a garrafa no mundo.
Aqui vou eu, arrastando-me do mundo...
Com minha saliva fresca sobre a Bíblia."


[...]

Acordei com frio. A frase ainda na mente. Havia sonhado, de novo, com o trecho do filme O Libertino. Na verdade meus sonhos andavam estranhos, eu estava decorando o preâmbulo e o epílogo desse filme. Não foi brincadeira, já aconteceu com outras coisas, mas nunca com textos tão longos, e esse era quase toda noite.
Nesses momentos, em que eu acordava meio fora do mundo, eu não conseguia me olhar no espelho. Meu corpo inteiro ficava vermelho vivo e coçava muito, como uma viciada em heroína que no lugar da heroína tinha overdoses de sonhos.
Sentia uma leve pressão no meu peito, sufocante, minha garganta doía.
As vezes era tão forte, que eu achava ainda meio dormindo, que iria morrer assim como o personagem do filme. Não ficava triste nem aterrorizada, era só uma sensação pós sonho intenso.
Mas na maioria das vezes, ligava essa sensação, ao fato dessas insônias noturnas me darem a impressão que eu estava velha. Eu me sentia velha de todas as formas, menos da mais básica, minha imagem virtual.
Eu me olhava no espelho, via uma jovem. Não, não podia ser eu, aquele corpo quase adulto quase infantil não podia ser o meu.
Passava uma água no rosto e acordava um pouco. Pensava: eu gosto da minha aparência, mesmo mudando tanto esse cabelo, eu até gosto dele. Mas porque a nesses momentos de insônia eu penso assim? E todas as noites isso acontecia tão rápido! Essa 'mutação' se é que posso chamar assim. Eu estava com a imagem errada, tinha vontade de gritar que eu tinha 23 anos pra garota. Dizer pra ela que todos aqueles rapazes e amigos eram errados, tudo era jovem demais, e falavam demais. Aquela época não se calava.
De manhã o pesadelo acabava e eu n sentia nem um pingo dessas impressões até que em alguma noite eu acordasse de novo recitando quem sabe Shakespeare?
Eu ia ao shopping, as festas legalizadas e sem graça e adorava. Eu era jovem e queria ser sempre assim, a velhice só me lembrava da pressão sufocante no peito e das noites em frente o espelho.
Será que aquilo tudo era real?
Escancarava a janela, anoitecia e me faltava ar.
Sufocava a noite nos sonhos da mulher dançando nua na enorme casa vazia e tinha inveja do seu desprendimento da juventude.
Juventude clichê, sem nada na cabeça além das luzes na ponta do cabelo e bonezinho diesel na cabeça. Só acham o que os outros acham, só leram Código da Vinci e Harry Potter. Só se emocionaram vendo Um Amor Pra Recordar e riram assistindo a comédia As Branquelas. Consideram Madonna música antiga e amam Rebelde. Malhação? Big Brother? Programas obrigatórios para não faltar assunto com os seus. Festas? Chamam de balada e é Psy, Trance e Raggae. Fim de semana? Shopping. Literatura? Algum trecho de uma poesia de Fernando Pessoa tirado do msn ou fotolog de alguém.
Apesar de tudo são seres pretensiosos, filosóficos sem fundamentos concretos e sem nenhum pensamento interessante a passar uns pros outros.

(Será que fui eu, Alice, quem disse isso?)
Por que as pessoas ainda querem ser assim?




*Perséfone: Esposa de Hades. Comandava o mundo inferior a seu lado.

Pálida Ausência

Posted on 17:28 In:

As vezes eu pensava em tudo que ele havia feito pra mim, parecia simples, muito simples. Mas não foi apenas um se afastar do outro, mudou toda a minha vida e toda a confiança que eu depositava nas pessoas.
Antes deu sentir ódio profundo, eu sempre tinha vontade de procurá-lo ou até mesmo saber como ele estava. Por incrível que pareça, eu me preocupava de verdade.
Talvez por saber que ele não fez tudo sozinho, e mesmo se dando de vítima no final e presente, é aquele velho ditado: você se magoa mais com os que mais ama.
As vezes eu passava horas me deliciando com ameaças chantagistas e sem graça que eu nunca faria, mas era bom imaginar palavra por palavra que eu diria a ele.
Uma vez, tive um mórbido pensamento, que ainda não sei o porquê levei a fundo. Pensei em deixar um bilhete, verdadeiro, com todas as minhas ameaças e mágoas escritas numa frase curta e simples.
Um belo exemplo dos pensamentos sem graça que eu me metia, e uma hipótese sem fundamentos, claro. Eu não iria fazer nada disso, havia tempos que não ousava me aproximar da vida dele mais, mas por curiosidade, poderia ser melhor que qualquer conversa com qualquer pessoa.
Então resolvi ir a fundo na e escrever o tal bilhete, que por fim virou carta:

(Antes de tudo o nome dele estaria do envelope lacrado)
"Poisé, aqui estou eu, me arrastando das pessoas com ódio fresco na saliva (bem filme trash, mas foi muito bom confesso).
Me chame de fraca se quiser, mas me chame de tudo que não pode mais me chamar. (Toda carta nesse estilo tem uma frase assim)
Não teve um só dia que não te odiei, e te arranquei daquele imenso pedestral que te coloquei na mais pura cegueira e ingenuidade.
Eu nunca fui nada pra você, e hoje sei bem disso. A verdade eu que eu sempre soube e fingia que não era bem assim... que era seu jeito ou que você mudaria.
As pessoas não mudam.
Então é isso.
Desejo com toda a sinceridade que ainda me resta que você nunca seja feliz e nunca esqueça que eu vou te odiar, sempre."

Nessa noite, senti que fui longe demais com todos esses pensamentos cheios de ódio e rancor manchados em toda a confiança que eu tinha nas pessoas.

Fim do Sol

Posted on 09:49 In:

Eu tentava preencher meu tempo com tudo que podia.
Eu era a maior leitora, tomava mais de três banhos por dia, via de dois a três filmes por dia e ligava pra todo mundo que estava disposto a sair comigo pela noite.
A verdade, é que numa cidade pequena nas férias e carregando uma mágoa enorme dentro do peito que me impedia de tudo, não havia praticamente muito que fazer.
Tudo era pouco.
Logo eu que sempre vivi no excesso, agora sentia que nada era suficiente, nunca. Nem o meu apetite era mais como antes. Eu mal comia, e me satisfazia uma tarde inteira com dois pequenos pasteizinhos. Eu queria voltar ao excesso, mas ele me destruira e eu tinha vontade de vendar meus olhos e fingir que nada estava acontecendo as minhas costas, e ter de novo aquela felicidade falsa que me preenchia.
Eu morava numa pequena casa bem próxima do que podia se chamar de comércio da cidade. Meus pais eram ambos aposentados e viviam uma vida simples e bem comum. Minha casa tinha muitos gatos e o quintal quando demorava pra ser limpo às vezes cheirava mal.
Não sei se esse era um dos motivos dele nunca ir a minha casa e evitar meus pais, que sempre foram pessoas bem tranqüilas. Porém ele nunca conseguiu os enganar, como fez comigo.




O Furo

Posted on 09:31 In:

Era cinco da madrugada e eu estava indo dormir o mais tarde possível pra não poder pensar muito, pra não ficar muito tempo sozinha absorvida naqueles pensamentos angustiantes...
Mesmo com muito sono, eu levantava e olhava pro telefone. Esperando algo que não acontecia nunca acontecer.
Pela manhã, eu acordei muito cedo. Justo o que não queria. Eu durmo tarde pro dia passar rápido, e então quando vi que era oito da manhã, eu me encolhi em posição fetal e apenas esperei a dor vir. E comecei a pensar em tudo que não devia.
Me sinto masoquista quando faço isso, sei que é pior... sei que quanto mais procuro pistas mais encontro provas e isso me destrói. Mas mesmo assim eu continuo rasgando cada centímetro da carne até descobrir cada podre. E todos esses podres doem muito mais em mim.
Meu masoquismo matinal, eu me encolhia até não poder mais, a raiva tomava conta de todo o meu corpo, raiva de ter sonhado que o tinha perdoado. Raiva de lembrar tudo o que ele fez e raiva de ainda pensar sem parar em vê-lo.
É nesse momento que as lágrimas vem e eu começo a contar os segundos para dormir de novo.
Isso aconteceu mais três vezes pela minha manhã.

Tolerável

Posted on 18:10 In:

Porque as pessoas que mais amamos são as que mais nos magoam?
E porque as pessoas que mais magoamos são as que mais amamos?
Por outro lado,
se amamos tanto essas pessoas, como saber se elas realmente nos amam ou nos toleram porque é preciso?

A família é tolerável.
O amigo é tolerável.
O trabalho é tolerável.
O parceiro é tolerável.
Até a diversão é tolerável.
O amor virou algo tolerável (para o lamento das palavras de Jane Austen).