



Viajei por terras distantes, sem certezas nem rumo.

Enfim, resolveu partir. Talvez porque simplesmente queria partir, não importando pra onde fosse. Ou, fosse apenas porque era preciso.


Olhos brilhantes.

Não, não acredito em destino.
De mesas tortas jogam meus sonâmbulos

40 Meus líderes, meus deuses. Como ocultam
41 As cartas limpas, como atiram negros
42 Naipes no vale glauco de meu sonho!
43 Erza, trazem mais putas para Elêusis
44 E hoje Amatonte é todo o vasto mundo:
45 Prostitutas sagradas! - Se esta carne
46 Demais sólida pudesse dissolver-se,
47 Derreter-se e em rocio transformar-se!
48 Príncipe louro, oh náusea, proibição
49 Do mais ilustre amor, oh permissão,
50 Oh propaganda santa do mais rude!
51 L'amor che move il sole e l'altre stelle
52 Aqui parou, em ponto morto. Nem
53 Cometas hoje aciona, ou gestos de
54 Ternura move rumo aos eixos trêmulos
55 De seres enlaçados; nem desperta
56 Encantados centauros de seu sono.
57 Amor represo em ritos e remorsos,
58 Eros defunto e desalado. Eros!

[...]
5 Esta estação não é das chuvas, quando
6 Os frutos se preparam, nem das secas,
7 Quando os pomos preclaros se oferecem.
8 (Nem podemos chamá-la primavera,
9 Verão, outono, inverno, coisas que
10 Profundamente, Herói, desconhecemos...)
11 Esta é outra estação, é quando os frutos
12 Apodrecem e com eles quem os come.
13 Eis a Quinta estação, quando um mês tomba,
14 O décimo-terceiro, o Mais-Que-Agosto,
15 Como este dia é mais que Sexta-feira
16 E a Hora mais que Sexta e roxa.
[...]

Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes couraçados.
O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados,
Por cima de qualquer muro de credo,
Por cima de qualquer fosso de sexo.
O mundo que venci deu-me um amor
Amor feito de insulto e pranto e riso,
Amor que força as portas dos infernos,
Amor que galga o cume ao paraíso.
Amor que dorme e treme. Que desperta
E torna contra mim, e me devora
E me rumina em cantos de vitória...

Estava espremida num canto do compartimento, a pesada mala
acima da cabeça, Karenin encolhida a seus pés. Pensava no
cozinheiro do restaurante onde estivera empregada quando
morava com a mãe. Ele não perdia uma oportunidade de dar-lhe
uma palmada nas nádegas e mais de uma vez, diante de todo
mundo, convidara-a para dormir com ele. Era estranho que
agora pensasse nele. Ele encarnava para ela tudo o que lhe
repugnava. Mas, no momento, só tinha um idéia, encontrá-lo
novamente e dizer:
-Você dizia que queria dormir comigo. Bem, aqui estou!
Tinha vontade de fazer alguma coisa que a impedisse de voltar
para Tomas. Tinha vontade de destruir brutalmente todo o
passado de seus sete últimos anos.
Eu poderia dizer que a vertigem é a embriaguez causada pela
nossa própria fraqueza. Temos consciência da nossa própria
fraqueza mas não queremos resistir a ela e nos abandonar.
Embriagamo-nos com nossa própria fraqueza, queremos ser
mais fracos ainda, queremos desabar em plena rua, à vista de
todos, queremos estar no chão, ainda mais baixo que o chão.
Tentava persuadir-se de que não ficaria em Praga e de que não
trabalharia como fotógrafa. Voltaria para a pequena cidade de
onde a voz de Tomas a arrancara.
Assim, no fim de cinco dias Tomas subitamente apareceu no
apartamento.
Estavam os dois um em frente ao outro, no meio de uma planície
gelada e tremiam de frio.
Perguntou:
-Sim.
-Você esteve no jornal?
-Telefonei.
-E aí?
-Nada. Esperava.
-O quê?
Não podia dizer-lhe que era por ele que esperava.

Aquele que deseja continuamente "elevar-se" deve esperar um.
dia pela vertigem. O que é a vertigem? O medo de cair? Mas por
que sentimos vertigem num mirante cercado por uma
balaustrada sólida? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a
voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o
desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados.
As infidelidades de Tomas lhe revelavam de
repente sua impotência, e desse sentimento de impotência nascia
a vertigem, um imenso de sejo de cair.
esbarrava nas coisas ou, na melhor das hipóteses, deixava cair
todos os objetos que tinha nas mãos.
Sentia um desejo irresistível de cair. Vivia numa vertigem
contínua.
Quem cai diz: -Levante-me!
Sentia-se atraida porque ela mesma se sentia fraca. Estava de
novo com ciúmes e suas mãos começaram a tremer. Tomas
percebeu e fez um gesto familiar: tomou-lhe as mãos para
acalmá-la com uma leve pressão dos dedos. Ela fugiu.
-O que é que você está sentindo?
-Nada.
-O que é que posso fazer por você?
-Quero que você fique velho. Dez anos mais velho. Vinte anos
mais velho!
Com isso queria dizer: quero que você fique fraco. Que você
seja tão fraco quanto eu.

Tomas era tão evidente que ele era forçado a calar-se e a
acariciar, cabisbaixo, a mão de Tereza.
Esses sonhos eram eloqüentes, mas, além disso, eram belos.
Esse é um aspecto que escapou a Freud na sua teoria dos sonhos.
O sonho não é apenas uma comunicação (às vezes uma
comunicação codificada), é também uma atividade estética, um
jogo da imaginação, e esse jogo tem em si mesmo um valor. O
sonho é a prova de que imaginar, sonhar com aquilo que nunca
aconteceu. é uma das mais profundas necessidades do homem.
Eis aí a razão do pérfido perigo que se esconde no sonho. Se não
fosse belo, o sonho poderia ser rapidamente esquecido. Mas ela
voltava incessantemente a seus sonhos; repetia-os em
pensamento, transformando-os em histórias fantásticas. Tomas
vivia sob o encanto hipnótico da beleza angustiante dos sonhos
de Tereza.
Aonde quer ir? Todos os dias você sonha com a morte, como se
realmente quisesse partir...
disse-lhe um dia, à mesa de um
bar.
A luz do dia, a razão e a vontade retomavam o comando.
Olhava para ele com amor, mas temia a noite que ia chegar,
tinha medo de seus sonhos. Sua vida partira-se em duas.

mentira s. f.
primeira pessoa sing. pret. m.-q.-perf. ind. de mentir
terceira pessoa sing. pret. m.-q.-perf. ind. de mentir
1. Ato de mentir.
2. Engano propositado. = falsidade
4. Aquilo que engana ou ilude. = fantasia, ilusão
mentir
v. intr.
1. Dizer o que não é verdade.
3. Enganar.
4. Falhar.
5. Faltar.
6. Não cumprir o prometido ou o que era de esperar.
A melhor punição do mentiroso é não se crer nele nunca mais.


Mas, um dia, o viajante começou a me deixar... Aos poucos.
O viajante se enfureceu porque eu li suas palavras secretas.
Um conhaque e um inverno passado, por favor.


(...)
Pode parecer estranho, mas a interpretação dos Muitos Mundos de Everett tem implicações além do nível quântico. Se uma ação tem mais de um resultado possível, então - se a teoria de Everett estiver certa - o universo se quebra quando aquela ação é tomada, o que continua sendo verdade, mesmo quando a pessoa decide não tomar uma atitude.
Isso significa que se você já esteve em uma situação onde a morte era um dos possíveis desfechos, então, em um universo paralelo ao nosso, você está morto. Esse é apenas um dos motivos que faz algumas pessoas acharem a interpretação dos Muitos Mundos perturbadora.
Outro conceito perturbador da interpretação dos Muitos Mundos é que ela mina nosso conceito linear de tempo. Imagine uma linha do tempo mostrando a história da Guerra do Vietnã. Em vez de uma linha reta mostrando acontecimentos notáveis progredindo adiante, uma linha do tempo baseada na interpretação dos Muitos Mundos mostraria cada possível desfecho de cada ação tomada. Daí, cada possível desfecho das ações tomadas (como resultado do desfecho original) também seria registrado.
Uma pessoa, porém, não pode ter consciência de suas outras personalidades - ou até mesmo de sua morte - que existem nos universos paralelos. Então, como saberemos se a teoria dos Muitos Mundos está certa? A certeza de que a interpretação é teoricamente possível veio no fim dos anos 90, com a experiência mental - uma experiência imaginada, usada para provar ou desmentir teoricamente uma idéia - chamada suicídio quântico.
Eterno Retorno

“O mito do eterno retorno diz‑nos, pela negativa, que esta vida, que há‑de desaparecer de uma vez por todas para nunca mais voltar, é semelhante a uma sombra, é desprovida de peso, que, de hoje em diante e para todo o sempre, se encontra morta e que, por muito atroz, por muito bela, por muito esplêndida que seja, essa beleza, esse horror, esse esplendor não têm qualquer sentido.
Não há muito, eu próprio me defrontei com o fato: parece incrível mas, ao folhear um livro sobre Hitler, comovi‑me com algumas das suas fotografias; faziam‑me lembrar a minha infância passada durante a guerra; diversas pessoas da minha família morreram nos campos de concentração dos nazistas, mas o que eram essas mortes comparadas com uma fotografia de Hitler que me fazia lembrar um tempo perdido da minha vida, um tempo que nunca mais há‑de voltar?
Esta minha reconciliação com Hitler deixa entrever a profunda perversão inerente ao mundo fundado essencialmente sobre a inexistência de retorno, porque nesse mundo tudo se encontra previamente perdoado e tudo é, portanto, cinicamente permitido.”
***
A idéia do eterno retorno me faz lembrar da teoria física dos Muitos Mundos, que não tem muito haver com a primeira, mas traz uma analogia muito interessante de repetições, porem repetições diferenciadas, ao contrario da Idéia do Eterno Retorno.
Embora muito sábia a passagem do autor sobre Hitler, penso que a idéia de uma reconciliação não possa ser maior que a mágoa pelo que foi perdido, sendo portanto exageradamente efêmera demais, se encaixando perfeitamente nas teorias de Nietzsche do eterno retorno. O eterno retorno pede reconciliação e ao mesmo tempo uma sensibilidade um tanto fria.












