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About a Girl

Minha foto
"Nasci em 1992, no interior do estado. A dança-teatro e o cinema formaram meu primeiro imaginário: a palavra vinha como complemento das imagens. Quando descobri os livros, bem cedo, aceitei-os apenas como o lugar das palavras e das idéias, vendo as imagens a que remetiam ou sugeriam, como fantasmas imponderáveis e sem substância, descabidos, impróprios para aquele tipo de veículo. Quando me pedem que fale de mim mesma, sinto o incômodo, pergunto: que imagem devo projetar? Tenho tantas. Acho que a melhor para o caso é a que passo nos próprios posts, de alguém que escreve mas não acredita nos fantasmas das palavras, embora eles sejam inevitáveis. E a melhor forma de conviver sem temor com essas fantasias é jogar com elas, torná-las risíveis, desautorizá-las, de modo a evitar o poder técnico abusivo que tem quem escreve, para iludir o leitor."

Aos destinatários destas palavras

"Pra dilatarmos a alma
Temos que nos desfazer
Pra nos tornarmos imortais
A gente tem que aprender a morrer
Com tudo aquilo que fomos
E tudo aquilo que somos nós"


O Teatro Mágico

Quem lê

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Último Poema

Posted on 19:35 In:




























Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

A Química entre a Leveza e o Peso

Posted on 19:12

Meus dias chuvosos foram estáveis, quisera eu também serenos.
A ânsia do novo começou, finalmente, a regredir para talvez um inevitável fim das minhas ilusões.
Das desilusões me abastei, enfrentei da maneira mais racional que pude.
Era satisfatório, tinha de ser efêmero.
Será efêmero mesmo se um dia, com a minha prévia calma, se concretizar.
Me senti o ser mais belo por um dia e o mais horrendo no outro, fazia parte, o que estava em jogo era a imagem não a razão.
A futilidade do espelho me libertou da sobrecarga da razão, dos livros, da políticagem e até mesmo do pesado Vade Mecum.
Estou aceitando o que sou, sem pena, sem perder o foco dos meus objetivos.
Prometi não mais me perder do que sou, de reconhecer, por fim, as sábias palavras de Carrol* através do espelho, as brisas de Woolf** sobre meus poemas, o roçar dos gatos sob meus dias e o calento da noite, das cobertas limpas deslizando sob meu corpo.
Finalmente senti que existia, com ajuda? sim.
Não me sinto subjugada ou menos que qualquer um por ter precisado gritar, e gritei... como gritei.
Ao quebrar o silêncio assustei a todos e a mim por cavar fundo demais. Escolhi não me esconder mais na superfície, no submundo do país das maravilhas que sempre criei.
Descobri que existia, que o contato era real e que a química e o poço que cavei feriam, envergonhavam, mas tenho esperança que podem me trazer de volta.
Descobri que posso sobrevoar o real, comandá-lo e, talvez um dia, abraça-lo como parte de mim.
Por enquanto, aceito minha condição de permear entre a existência e a não-existência. Acredito que fará parte do processo de alavancagem, do despertar que me restou.
A menina dos belos cabelos negros disse que talvez o caminho seja esse, disse que se orgulha de mim. Espero um dia me orgulhar com real empatia também, não aquele orgulho de se sentir subjugado em relação ao outro.
Talvez reste tão pouco tempo, ou então seja preciso tempo demais ou talvez, o tempo nem mesmo exista no caminho que escolhi.
Sinto medo, aquela reviravolta no estômago do inesperado. Minhas auto sabotagens me ameaçam com perdas sem oferecer saídas.
Por hoje vou evitar o que me dói, por agora os calmantes levaram o gosto amargo, das enfermidades do corpo você sempre me fortaleceu.
Vou esquecer uma noite o medo de não te ter amanhã ao meu lado e que seja doce enquanto dure.
Apaguei as lágrimas sem cigarros.

*Lewis Carrol
*Virginia Woolf

Posted on 20:07




























e o fato de que a distância aniquila de uma vez ou aumenta o sentimento de maneira assustadora.

(empty title)

Posted on 22:24 In:

Códigos, bulas, pílulas.
Os olhares densos na farmácia, são tantos remédios "como ela é nova para tomar essas coisas" diz a hesitação nos lábios do farmacêutico ao pedir a identidade.
"Com esse tanto de remédio já esteve internada, pode ter certeza. Deve ser drogas, todos esses jovens de hoje são drogados." diz os olhos da senhora dos cachos branco azulados na fila ao lado.
"Porque você precisa disso minha filha? Você é tão nova, isso é realmente necessário?"

Não falo, não explico.
Ouço os gritos e expresso-os com timidez ao tique-taque da sala do médico. Eu estou louca de tão nova, tão nova como dizem que sou.
Minha mente não fala, não é capaz de reproduzir nem mesmo um mínimo ruído.
O que eu devo fazer doutor? Não quero dormir sozinha essa noite, fico tão pequena naquela cama grande.
A dor não oscila, os sorrisos oscilam em meio a tudo que me dói.
A tudo que sinto, que falta. Falta no que sinto.
Tudo que droga nenhuma preenche, o vazio, a falta do mar.
A falta de amor ao mar.
Eu decepciono a todos que me amam, mutilo as pessoas pagando um preço três vezes mais denso.
Por três vezes foi mais amargo, por três vezes desamei e reaprendi a amar.
Ou talvez, por três vezes não senti nada além do vazio do mar.


























Eu lhe contarei como vai ser daqui pra frente...
Eu a vi no ônibus e.. bem, foi isso. Foi mais do que um passar por você, é mais do que um encontrar de olhos.
Eu lhe contarei o que vai ser de agora em diante...
Eu a vi no ônibus, vi seus sapatos favoritos, mas eles se desmancharam há um tempo atrás...

Tudo bem, não é minha culpa, eu não ligo.
Não me arrependo de nada, não é minha culpa.

Eu lhe digo como tudo vai ser...
Como perder um pedaço, como senti-lo ir embora.
Parta quando escurecer, não ao meu lado, eu não estarei lá para te abraçar.

Vá embora, eu lhe contarei como vai ser...
Não, você nunca poderá segurar minha mão de novo.

Não é minha culpa, eu não ligo.
Não me arrependo de nada, não foi minha culpa.

Você poderia ter tudo
Oh eu te daria tudo, não fosse as mentiras
Você poderia ter tido tudo



Where is my mind?

Posted on 22:31 In:




























Minha mente está em você, não minha voz.
A teia que teces sobre tantas não irá me preencher.
Dentre as míticas figuras desta noite,
está o relógio que contava as horas.
Se não podes ser inteiro no que faz, que se vá.
Pare de me torturar já que não sou o que deseja.
Minha mente ainda está... ainda está a se mutilar.
A substituir abraços em teu leito,
a ser fantoche e mendigar por palavras sinceras.
Traindo desejos, farta de jogos.
Quisera eu te ligar agora e saber como foi seu dia,
quisera eu te querer sem passos incertos
sem te ouvir reviver outras cores.
Eu não desisti, só não pude mais esperar,
tentarei te substituir por outros sonhos.
As mágoas nunca permanecem por muito tempo,
mas com elas irão também os sentimentos.
Espero que o vazio também se vá.
Ainda te anseio em minha porta como na mente
levo tais desejos em mim calada, por estar segura assim.
Sinto que, como Poe, se amei, foi só.




Saudade meia boca

Posted on 22:22 In:




















pensei que fosse
receber hoje
um tele
fonema
seu,

mas já que
não recebi
melhor ligar
a tele
visão.

como seria bom
se a saudade
se matasse
por tele
patia.

Hey!

Posted on 13:57 In:






















Hey
estive tentando te encontrar

Hey
deve haver algum demônio entre nós
ou vadias na minha cabeça
há vadias na minha porta
ou vadias na minha cama

mas, Hey!
onde você esteve?
se você me obrigar a ir
eu certamente vou morrer
estou acorrentado

'uh'
disse o homem para a senhorita
'uh'
disse a senhorita para o homem que ela adorava
e as vadias como um coro
fazem 'uh' por toda a noite
e quanto a você Mary, não está cansada disso?



Infância

Posted on 23:57 In:




























Não fui, na infância, como os outros
nunca enxerguei com os olhos dos outros,
nunca vi como viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alteava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demôno, ante meus olhos.
Tudo que amei, amei sozinho.

Nevermore

Posted on 23:15 In:



















‎"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse.
"Parte!
Torna á noite e à tempestade!
Tira-te de meus umbrais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"

A este luto e este degredo,
A esta noite e este segredo,
A esta casa de ânsia e medo,
Dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!

Disse o corvo, "Nunca mais"

Destempero

Posted on 22:19 In:




























me reproche
pelo amor de Deus
me impeça!

não me cuspa apenas desprezo
ou eu fico a esmo
como sapato sem par.

também não se faça de vítima
não se cubra de desculpas
que isso já é prova legítima
que deseja me magoar.

me reproche
pelo amor de Deus
me reproche!

quando não falas nada,
minha alma se torna angustiada
inquieta ao tentar te decifrar.

e não se feche a meu desespero,
não ignore a insegurança
fruto do destempero,
plantado a esmo, dentre tantas a par.

me reproche
pelo amor de Deus
me dê a verdade!

pois também não sou fantoche,
desfaça essa cara de deboche
que aí é sacanear.

Era das Concessões

Posted on 15:14 In:




















Por que você não me deixa partir?
Estas palavras que aqui jazem, ferem tanto...
Não sou do tipo que te falará o que deseja
Não sou do tipo que precisará te dizer
Só o que você quiser ouvir

Acordei do seu lado esta manhã,
E pensei que talvez você fosse gostar de saber...
Recebi sua mensagem completa há uns dias atrás
Eu compreendi cada palavra do que você disse
E agora que realmente a ouvi, eu posso dizer:
Você vai se arrepender.

E não sou do tipo que vai gostar de te dizer
Só o que você quiser ouvir
Você não é do tipo que precisa recitar-me
Poemas sobre pássaros e abelhas

Esbarramos em acontecimentos passados a todo o tempo
E o ponto crucial um dia se torna crime
Eu não serei do tipo que gostará de dizer
Eu não sou do tipo que precisará te dizer...



A Grande Marcha

Posted on 21:22 In:


















A grande marcha não era necessariamente para encorajar beleza ou mostrar força, na verdade ela se encontrava em um pequeno objeto, aquele velho livro.
Não havia nela entusiasmo e muito menos leveza nas saias das grossas pernas juvenis, a grande marcha era passado e presente, o descartar de um futuro e, dentro do Eterno Retorno*, a imponente roda da fortuna.
Hoje eu vi o sol morrer pensando no pai, no sereno da noite, escutei mais uma morte no azul da lua. É o óbito de sensações ao pensar no meu livro, na minha história e o que ela significa expressa em outras histórias...
Minha heroína, que não passa de uma libertina com um chapéu de coco, fugindo estupidamente do amor considerado ideal. Meu herói, alguém cuja leveza tornou-se defeito e é obsessivamente idolatrado, na esperança da mudança ajustável. A minha pequena... ah, o que dizer da minha pequena? Ela não merecia ser taxada de mais uma vítima, frágil até os ossos, até parece se deliciar com esse papel. Só se esqueceram de contar como ela destrói toda a leveza do herói nas últimas páginas.
Não, essa não é a minha história.
A minha história é o mais belo e efêmero dos pesadelos, não criou personagens além das simbologias numéricas de Sofia.
Não se enquadrou em fatos, é o Eterno Retorno vivo, emoldurou a fortuna em desuso e gritou a plenos pulmões: einmal ist keinmal!
Gritou para se sentir viva, para nunca esquecer que uma vez não conta, que uma vez é nunca. É preciso três, sete, doze para amar todos os es muss sein.
E como eu os amo.

"Olhar o pátio, impotente, e não conseguir tomar uma decisão; ouvir o ruído obstinado do próprio ventre num momento de exaltação amorosa, trair e não saber parar na estrada tão bela das traições; erguer o punho no desfile da Grande Marcha [...] conheci e eu mesmo vivi todas essas situações; de nenhuma delas, no entanto, saiu o personagem que eu mesmo sou no meu curriculum vitae. Os personagens do meu romance são minhas próprias possibilidades que não foram realizadas. É o que me faz amá-los, todos, e ao mesmo tempo a todos temer. O que me atrai é essa fronteira que eles atravessam (fronteira além da qual termina o meu eu)." - Milan Kundera


*http://migre.me/5vSQO

A Tereza que abandonei

Posted on 10:24 In:




























Sempre que me via nos braços de Miguel, me sentia como uma Tereza*, aquela criança ingênua e até mesmo frágil, entorpecida de amor. Tamanha doçura fazia fechar os olhos pro mundo, pras pessoas e pros rascunhos. Era cuidado que transbordava, era sua boneca de porcelana, tão pequena e perfumada. Sim, como era bem cuidada...
Sentia o abraço quente, a comida na mesa, os pés tão pequenos e delicados em cima dos de Miguel, caminhávamos assim para o quarto, com meus pés pequeninos em cima dos dele, tão grandes. Sorriamos, caíamos, eramos uma pessoa só.
Estava segura, tão segura... se perguntassem do quê, não saberia responder. Se perguntassem porque tudo aquilo não foi o suficiente, saberia menos ainda.
Então, certo dia, fugiu. Fugiu dos sonhos, dos braços fortes, da segurança e, no mais, levou todo o amor. Só não se deu conta de que o que amava era a fuga e não seu destino.
Não se deu conta que a leveza de Miguel não viveria sem o amor que fora levado, nada é tão forte assim... mas não se tratava de força, ele não merecia tudo aquilo... aquele amor tão puro nunca mereceu.
Abandonei Tereza ainda febril, não devolvi nem as malas. Ficou parada na beira da estrada com um exemplar surrado de Anna Karênina debaixo dos braços.
Braços que hoje só pertencem a lembranças do que um dia chamei de número seis.


*Referência a personagem de Milan Kundera do livro A Insustentável Leveza do Ser.

Sabina

Posted on 03:21 In:

Hoje me senti tão forte, erguida sobre toda aquela areia movediça. Ao mesmo tempo senti que não sei se desejo toda essa força, que tudo que fiz foi sujo e até mesmo proposital... esperando, sempre esperando por algo inominável que nunca pude ao certo dizer que amava.
A sujeira das minhas palavras ficou engasgada sobre o meu corpo, pelo seu cheiro nas minhas roupas. Me tornei Sabina*, livre, sem raízes no chão e no coração. Me tornei leve, nos lençóis, nas palavras e nos sabores... Propensamente usável de corpo e alma.
Porém, nunca nos sonhos, nos sonhos não poderia. A densa névoa negra que me persegue todas as noites me questiona: "Quem é você?" assim como a Lagarta um dia questionou Alice.
Me tornei a outra, a que subtrai sonhos, que espera, que usa máscaras e foge de quem a protegeu com amor infinito.
Hoje eu confesso que choro, mas não choro por mim e nem pela minha decisão de não engolir mais suas palavras secas. Eu choro por Miguel, choro por todos aqueles vinhos batizados de mercúrio que não foram suficientes pra me prender. O que já foi?
Sempre te vi leve, mas as manchas, como imaginei, foram inevitáveis. Pesaram toda uma história simplesmente pelo fato de você tentar tanto escondê-las... se tornaram ainda mais distorcidas, deformadas.
Penso que não posso fazer parte disso mais, não quero. É tanto peso e eu só enxergo a falta. Você falta, pesa e se tranca no seu País das Maravilhas, que consegue ter um buraco mais fundo que o meu... e como eu não posso... como cansei de tentar decifrar-te.
Sim, esse é meu adeus a Sabina que você chamou em mim, no mais, te agradeço por ela. Ela me fez crescer como nunca imaginei mas, por agora, o adeus também se amplia a você.
Adeus e por favor, não retorne... não até o fim desse agosto, que se tornou tudo, menos meu.


*Referência a personagem do livro de Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser.

Em Quadros

Posted on 00:04 In:



















Certo dia, buscou-me a Lua na janela, tão frágil banhada de novas cores. Mostrou-me que algumas de suas faces podiam ser tão alaranjadas quanto o sol. Tento entender o exato momento em que o escarlate tão fresco se misturou com tantas outras cores e se perdeu de vista... Tento entender tanta coisa enquanto espero, enquanto procuro pelo que espero.
Venho hoje, dentre tantos sonetos e preâmbulos, despedir-me da ideia de despedir de você. É que esse mesmo texto começou como um texto de despedida que nunca seria entregue. Não consigo, na verdade nunca desejei realmente, acreditava apenas que era preciso.
Nesse tempo, te senti como algo jovem, tão efêmero... como uma idealização sã. Um querer ser adormecido e acordado tão repentinamente por tantas notas e claves. Um poder ser que me virou do avesso ao sussurrar nos meus ouvidos: deve ser, é preciso ser, es muss sein - e como eu queria que fosse.
Confesso que você é pra mim algo tão leve e vivo de uma forma invejável, mas não é exatamente isso o que procuramos tentando despertar o amor? O que desejamos intimamente e não podemos ser?
Eu só procurava entender, não penso em nada além do que desejo ter e ainda me encaro desajeitada pensando se realmente tenho. Você não procurava, mas encontrava longos cabelos vermelhos, escondidos nas roupas e lençóis... brincando descuidados com aquela saudade mansa que faz sorrir.
Ainda não sei o que espero, penso que um sinal, um convite ou apenas mais um copo de vinho uma noite... Enquanto isso me afasto dos fantasmas, é uma batalha diária, confesso. Seria bom ter mais verbos para flexionar, menos esperas e inseguranças...
Sim, eu me sinto tão insegura, sua leveza me traz calma mas nosso silêncio sela um pacto com a insegurança aguçada por outros. Talvez a culpa seja apenas da distância atual, que repele e ao mesmo tempo fascina, mas a mim também confunde. Mistura cores e aromas.
Todos os dias em que ele bate a minha porta, só vejo mar. A insegurança me assombra, procuro por você, encontro seus lindos olhos na minha mente, me fitando de forma serena. Não sei o que dizer a eles, não sei o que esperar encontrar neles... Amor? Paixão? Não sei ainda que expressão eles tomariam com palavras tão fortes assim, mas sei que sinto algo ainda inominável, que pulsa sem compreender... um querer desenfreado tão limpo e sonoro pelas palavras desenhadas, desejadas no seu corpo.
Kundera me ensinou sobre a Leveza e o Peso, você me mostrou-os da forma mais crua que já pude ver. Comprou pincéis, cavalete e pediu-me para pintá-las em aquarelas nuas. Não deixei, mas como eu queria ter aquelas suaves noites pra procurar nos teus quadros agora.
Me sinto nesse momento tão leve, não lamento nada mais, nem me culpo - como sempre o fiz na sua frente. Apesar de tantas brisas breves, eu continuo me perdendo a procura de um porto seguro naqueles olhos, nas palavras que busco deles. Por que ainda se prolongam? Não vêem que espero?
Tento não importar, permaneço por aqui, quietinha, encolhida com os meus sonetos, ando carregando só os nomes que você me deu.
Soube que a lua não visita sua janela há um tempo, que seus lençóis foram limpos e estão pesados. Eu senti suas correntes antigas com um arrepio gelado.
Ninguém esperava, mas permaneci imune, é uma empatia tão forte e singela a que sinto. Eu te compreendia, ainda compreendo... compreendo até seus fantasmas.
Quanto aos meus, me arrastam por aqui, desidratam até os ossos... confesso ter buscado seu nome muitas vezes para desautorizá-los, desmembrá-los... Mas me sinto tão perdida, os poetas já não trazem tantas respostas.
Confesso ainda ter caminhado por campos literários em que nunca fui chamada, talvez pelo desejo de não sentir mais esse medo seco, nem essa coragem falha. Nessas noites trêmulas, senti uma tremenda falta de chão quando, finalmente, dei de frente com histórias que não me pertenciam. O resto veio como consequência, com uma brisa perdida sem nome.
Não associei mais, não quis pensar no que aqueles olhos me diriam. Não faz, nem nunca irá fazer, parte da leveza das cores que me fazem querer você, de tantas formas e tão bem.
























Acordei às sete da manhã e não podia, nem se quisesse, dormir de novo. Andava pensando como seria se *Anna Karênina, depois da tumultuada trama com Conde Vroski, escolhesse não pular em frente aquele trem... o que aconteceria se, depois de tudo, Anna tivesse a opção de retornar para o Karênin? Com certeza, não teria sido um final tão belo e trágico, mas porque não se contentar com esses frágeis restos de uma vida passada tornando-os algum dia suspiros de sonhos almejados? Com o tempo o passado ministrado com o presente poderia, quem sabe, se tornar uma grande mentira contada tantas vezes a ponto de se tornar a verdade manipulada.

***

Alice tinha regressado do jantar, sentia-se fraca e não conseguia absorver tudo que lhe foi dito. Era fato que já sabia, secretamente, já sabia de cada palavra que havia saído aquela noite dos lábios de Caroline. Fez-se de ingênua para mostrar para Deus sabe quem que não se importava. Quando retornou sentiu uma fome não saciada, havia passado o dia todo com o almoço, mesmo assim não foi capaz de dizer, havia perdido a fome e nem percebia. Havia entregado todo o trabalho do corpo pra mente, queria ajudar Caroline, com todas as forças. Para isso escondeu todas as mortes, a da mãe, a do amor de Miguel e a de Amélia Passos. Caroline não precisava saber, não deveria saber, era preciso ser assim - es muss sein.
Agora, a vertigem contida estava estampada para todos. Caminhou pra casa, e como num lastro de um destino torto encontrou Miguel com meia garrafa de vinho na porta de sua casa. Não houve rodeios, ele disse exatamente tudo que deveria dizer, fez exatamente tudo que deveria fazer. Sempre soube ser o melhor amante com maestria.
Miguel era o verdadeiro pretérito mais que perfeito, tão distante e sempre de prontidão a dar mais do que o esperado. Não havia o que mudar no seu amor por Alice. Ele era melhor do que qualquer outro e ela sabia.
Não haveria nenhum outro como ele era, nenhum seria capaz de fazer o que ele fazia. Podia trazer a lua e as estrelas sem ela almejar ou pedir. Mas porque tamanho amor não a aquecia? Porque não a tocava?
Miguel não era capaz de ser, como pessoa, admirável... era ingênuo, na maioria das vezes, se passava por bobo perto dos outros. Defendia o que não sabia, falava demais sem medir as palavras, era todo coração.
Coração que se encontrava parado ali, de prontidão diante dela. Como seria reconfortante retribuir os sonhos de Miguel...
Não foi preciso tantas palavras, quando se deu conta, já estavam no quarto. Ele dizia tudo que qualquer mulher desejaria ouvir. Mas as doces palavras e juras de amor não eram retribuídas, mesmo assim, isso não o impedia de continuar... o amor é engraçado. Alice não podia ouvir, a porta da sua memória poética** estava fechada, por mais que Miguel batesse, era toda corpo.
Ele percebeu que ela não expressava as reações esperadas, sabia que ela nunca fora assim. Não disse nada, pelo contrário, acentuou as palavras, gestos, suspirou com mais amor. Buscou, inutilmente, trazer mais que as estrelas.
Alice não o impedia mas também não fazia nada, quando percebeu que aquilo tudo não era de desejo seu, se fechou num casulo compacto... e enquanto Miguel se esforçava para ascender a memória poética, ela se lembrava de Caroline... enquanto as mãos afagavam seus cabelos, ela recordava as de Caroline mais cedo segurando as suas firmemente e a empatia sentida pelos seus problemas... Logo, Alice sabia que ela iria partir e era preciso escutar, entender e deixar que fosse assim - es muss sein.
No meio de tantos pensamentos sentiu o membro rígido de Miguel se aproximar, aquila visão a chocou. Arruinava a peça e descaracterizava os personagens. Não pôde suportar mais, apertou os olhos em prantos, as lágrimas começaram a rolar... se tornou o que deveria ter sido desde o jantar mas não pode ser. A força finalmente se fora, virou mar.
Isso bastou para parar tudo, naquela noite ele soube que nada que dissesse ou fizesse tocaria a poesia, nada a faria voltar. Naquela noite ele também se fez mar.


*Romance de Leon Tólstoi
**Refere-se a um termo do livro A Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera

A Tangerina e o Bagaço

Posted on 22:19 In:





















Essa tarde andei pensando sobre a Tangerina e o Bagaço. Como as pessoas se confundem quanto a idealizações dos próprios fantasmas passados e como é fácil esquecer o que não faz parte deles.
O coração é algo engraçado, revive sentimentos maravilhosos, apaga o que não deveria ser lembrado e prega peças... insiste em (re)afirmar o que queremos mas já aprendemos que não devemos. Faz parecer tão simples e até mesmo belo. Até que um dia o que era fresco e firme murcha, só nos resta bagaços... pedaços desfeitos de começos perfeitos.
Andei lendo Sylvia Plath e me deparei com um trecho a respeito de tudo isso, Sylvia descreveu algo semelhante ao dizer que não é possível recomeçar a cada novo segundo. Que temos de julgar a partir do que já está morto. Como areia movediça, invencível desde o início...
Sim, o que está morto é invencível, mesmo assim, teimamos numa comparação onde só o passado ganha. Só há como vencer o passado renunciando o presente, renunciando seus fantasmas. É preciso voltar ao passado e descobrir se ele é maior do que todas as insatisfações que o fizeram se tornar um pretérito mais que perfeito, que só é perfeito nas armadilhas do coração.
Ah, mas como os mortos são repletos de ideais, como são amados! Tudo que é distante causa-nos uma intensa repulsa ou fascínio. Desvia-nos do novo, do desconhecido... Tão incerto. O passado é seguro, a segurança vence as insatisfações, apaga-as... Deixa-nos sorrisos dos começos e por fim, nostalgia.
Quando nos somos capazes de vencer o passado (quando é necessário que ele seja vencido) pode ser tão tarde.. a areia movediça não consta forças, se desfaz feroz sobre nossas cabeças.
Percebi quando vi que passei todo esse tempo fugindo, presa ao passado... e por fim, o relógio me anunciou as últimas badaladas.
Todos os medos, dúvidas e anseios que depositei sobre você, de repente recaíram sobre mim. Eu sei como é difícil... sei melhor do que ninguém. É maravilhoso reviver secretamente aquelas primaveras.
Portanto, se lhe restam dúvidas faça o que deve ser feito, vá buscar o que procura, viva o que ainda não foi resolvido. E.. se achar que deve retornar algum dia, volte... talvez eu ainda esteja por aqui...
Escolho não estar enquanto houver dúvidas, enquanto formos um remédio dos erros passados. Não porque eu não deseje o presente, eu o desejo, mais do que tudo. Mas o desejo como uma fina gaze diáfana, frágil mas clara... e tudo o que você tem me mostrado desde que abriu tumbas está prostrado, pesado.
Desejo es muss sein, sem fantasmas além de Bethoven.

Um Nome

Posted on 19:03 In:




























Me disseram certa vez, que é preciso coragem para escrever na primeira pessoa. Não sei o que esboçar quanto a minha dificuldade de escrever sobre Caroline... Me perco nas frases, confundo sentimentos e chego a me envergonhar. Me pego desviando de toda a gramática de uma forma estupidamente imatura.
Caroline... só eu a chamo assim sempre, a batizei dessa forma no momento em que ela me presenteou com um nome diferente do que eu costumava ter - ser conhecida. Meu novo nome poderia ter sido associado a tantas outras memórias do passado, mas mais do que tudo pertencia naquele momento as justificativas de Caroline.
No começo, confesso que não o sentia como substantivo próprio, mas logo cedi quando, com voz mansa, disse-me que era mais bonito assim e que, portanto, seria assim - es muss sein.
Logo, não senti incômodo ao tratá-la de uma forma diferente também, não foi proposital. Nunca entendi porque não me referia a ela pelo apelido que todos a chamavam, justifico pra mim mesma através da perspectiva em que a conheci, de ser pra ser. Não houve ninguém pra nos apresentar, foi um novo mundo isolado de conceitos, grupos e nomes.
Não confessei que também achava mais bonito chamá-la pelo nome próprio, simplesmente nunca consegui pronunciar Carol. Carol não fazia parte do que ela era pra mim, tornou-se Caroline desse dia em diante. No momento em que partirmos, cada qual para seu próprio caminho, Caroline partirá junto e deverei chamá-la de Carol. É preciso que seja assim - es muss sein.

Branca de Neve

Posted on 23:16 In:




























Palavras da madrugada redigidas em primeira pessoa, resta coragem...
Com amor as águas não teriam turbulência, seria tudo tão fácil.
Poderia ser só paixão, também serve.
A felicidade dos apaixonados, tão almejada.

Podem servir algo que amoleça um coração enrijecido?
Os olhos brilhantes não possuem foco.
Derramam os mais belos poemas. As palavras são as únicas capazes de mudar a feição deste rosto.

Ao vivo não vivo. Sobre a luz da manhã escondo.
Fujo de todos os braços firmes, quero cuidado.
Tudo tem seu preço: será retribuído somente com palavras sujas.
É a puta da esquina, é a virgem Maria.

Seu coração pelo o que quiser de pior em mim, serve?
Perdem tempo, mutilando o que há de vivo por trás das próprias máscaras.
Eu não existo.
Daqui só saem palavras, o coração trêmulo se mantém sempre no peito.

Todos os gestos são descaracterizados, exalam sexo.
Restam as palavras que recebo, são capazes avivar algo em algum lugar.
Até quando?
O tempo voa nesse meu conto (quase que) de fadas.