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About a Girl

Minha foto
"Nasci em 1992, no interior do estado. A dança-teatro e o cinema formaram meu primeiro imaginário: a palavra vinha como complemento das imagens. Quando descobri os livros, bem cedo, aceitei-os apenas como o lugar das palavras e das idéias, vendo as imagens a que remetiam ou sugeriam, como fantasmas imponderáveis e sem substância, descabidos, impróprios para aquele tipo de veículo. Quando me pedem que fale de mim mesma, sinto o incômodo, pergunto: que imagem devo projetar? Tenho tantas. Acho que a melhor para o caso é a que passo nos próprios posts, de alguém que escreve mas não acredita nos fantasmas das palavras, embora eles sejam inevitáveis. E a melhor forma de conviver sem temor com essas fantasias é jogar com elas, torná-las risíveis, desautorizá-las, de modo a evitar o poder técnico abusivo que tem quem escreve, para iludir o leitor."

Aos destinatários destas palavras

"Pra dilatarmos a alma
Temos que nos desfazer
Pra nos tornarmos imortais
A gente tem que aprender a morrer
Com tudo aquilo que fomos
E tudo aquilo que somos nós"


O Teatro Mágico

Quem lê

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O mito do eterno retorno diz‑nos, pela negativa, que esta vida, que há‑de desaparecer de uma vez por todas para nunca mais voltar, é semelhante a uma sombra, é desprovida de peso, que, de hoje em diante e para todo o sempre, se encontra morta e que, por muito atroz, por muito bela, por muito esplêndida que seja, essa beleza, esse horror, esse esplendor não têm qualquer sentido.
(...)
Se a Revolução Francesa se repetisse eternamente, a historiografia francesa orgulhar‑se‑ia com certeza menos do seu Robespierre. Mas, como se refere a algo que nunca mais voltará, esses anos sangrentos reduzem‑se hoje apenas a palavras, teorias, discussões, mais leves do que penas, algo que já não aterroriza ninguém. Há uma enorme diferença entre um Robespierre que apareceu uma única vez na história e um Robespierre que eternamente voltasse para cortar a cabeça aos franceses.

A idéia do eterno retorno designa uma perspectiva em que as coisas não nos aparecem como é costume, porque nos aparecem sem a circunstância atenuante da sua fugacidade. Essa circunstância atenuante impede‑nos, com efeito, de pronunciar um veredicto. Poderá condenar‑se o que é efêmero? As nuvens alaranjadas do poente iluminam tudo com o encanto da nostalgia; mesmo a guilhotina.

Não há muito, eu próprio me defrontei com o fato: parece incrível mas, ao folhear um livro sobre Hitler, comovi‑me com algumas das suas fotografias; faziam‑me lembrar a minha infância passada durante a guerra; diversas pessoas da minha família morreram nos campos de concentração dos nazistas, mas o que eram essas mortes comparadas com uma fotografia de Hitler que me fazia lembrar um tempo perdido da minha vida, um tempo que nunca mais há‑de voltar?

Esta minha reconciliação com Hitler deixa entrever a profunda perversão inerente ao mundo fundado essencialmente sobre a inexistência de retorno, porque nesse mundo tudo se encontra previamente perdoado e tudo é, portanto, cinicamente permitido.

***

A idéia do eterno retorno me faz lembrar da teoria física dos Muitos Mundos, que não tem muito haver com a primeira, mas traz uma analogia muito interessante de repetições, porem repetições diferenciadas, ao contrario da Idéia do Eterno Retorno.

Embora muito sábia a passagem do autor sobre Hitler, penso que a idéia de uma reconciliação não possa ser maior que a mágoa pelo que foi perdido, sendo portanto exageradamente efêmera demais, se encaixando perfeitamente nas teorias de Nietzsche do eterno retorno. O eterno retorno pede reconciliação e ao mesmo tempo uma sensibilidade um tanto fria.
































E que realmente exista fora das novelas imbecis da rede globo, por favor.

Razão e Sensibilidade

Posted on 16:42 In:





























Download do Livro

Download do Filme RMV + Legenda

Download do Filme Torrent + Legenda


Domingo passado, eu estava precisando muito de algo que me fizesse deslocar a atenção das saudades que eu sentia, e como de costume resolvi ver um filme. Assisti a "Razão e Sensibilidade". Confesso que já li dois livros da escritora Jane Austen, no qual o filme foi baseado e gosto muito dos seus romances, isso ajuda bastante quando se junta com o meu fascínio por História (Jane 1775-1817), pois são livros que retratam perfeitamente os costumes da sociedade daquela época.
Enfim, sou suspeita pois sou fã de carteirinha de "Orgulho e Preconceito" seu livro de maior sucesso que também virou filme.
Razão e Sensibilidade apesar de um título bobo e ouso dizer que até romântico ao extremo, conta a história de duas irmãs, Marianne e Elinor Dashwood, uma com as emoções muito contidas e que pensa demais, raciocina demais e age de maneira prática e sempre correta em tudo que faz (razão). E outra que não tem medo de expressar seus sentimentos, desejos e anseios. Sempre age segundo seus instintos sem se importar com a opinião/conceito de terceiros (sensibilidade).
O interessante da história é mostrar que apesar de todos nós sermos mais inclinados para razão ou para sensibilidade (concordo mais em trocar sensibilidade por emoção), precisamos procurar o equilíbrio em tudo que vivemos, pois tudo que é extremo é demais, sobra. Parece clichê, mas penso que na prática se aplica muito bem e é interessante a forma que o filme retrata tudo isso dentro dos costumes tradicionais da Inglaterra naquela época.
Mas nem por isso penso que é errado ser extremo, faz parte da essência da personalidade de cada um de nós.
E você, está mais pra Razão ou pra Sensibilidade?

Sorriso de Mona Lisa

Posted on 15:46 In:



















Hoje eu estou feliz, e quero passar até o fim do meu dia feliz.
Pode ser que amanhã dê tudo errado, que o motivo da minha felicidade de hoje até não se realize, mas eu estou feliz em pensar que tudo pode dar certo.
Estou feliz porque é uma felicidade própria, pessoal, eu conquistei sozinha e só tenho a mim pra gozar plenamente dela, e isso só me faz crescer e sentir que eu posso sim, porque não?
E de quê importam os outros?

O olhar alheio pode ser pior que se torturar pelo que não aconteceu, portanto, só digo que essa noite eu sou a pessoa mais feliz desse mundo e guardo tal segredo pra usufruir sozinha lentamente com um orgulho inimaginável, cada pequeno e próspero sabor.

















"Não se conhece bem um homem que nunca deixou a barba crescer.
Digo isto sem preconceitos, porque não mais pertenço a confraria dos barbados. Mas estou convencido de que se conhece mal um homem que nunca deixou irromper na floresta de seu rosto, o outro, o selvagem, o agente adormecido, o hirsuto...
Há mulheres que, tendo conhecido a sabedoria erótica da barba nos lençois do dia, nunca mais se contentarão com a banalidade barbeada de outros amores...
Indizível prazer é esse de confiar a barba. Inconsciente. Ritualisticamente. Enquanto se lê, enquanto se aguarda o outro dizer uma frase estúrdia, enquanto se toma um vinho ou se afaga o cão junto a lareira, e fechando, bem dizia Walmor Chagas outra noite num jantar quando se discutia a metafísica da barba: a barba é uma máscara como no teatro; é outro em nós, um modo de o personagem se experimentar em cena..."

Escrito

Posted on 22:13 In:



















Helena surge caminhando lentamente
Ajoelha-se na tumba de Ulisses
Era um início fácil
Desprovido de "Quês"

Ulisses está morto
Já se passaram anos
Ou será que é ela
Quem permanece morta para ele?

Todavia,
Quem pressiona a tumba?
Quem mantém as escrituras reais?

Ela
Amavelmente sussurra:
"Permaneça morto, meu amor."

Filmes: London

Posted on 21:35 In: ,




























Download Torrent + Legenda

Hoje assisti a este filme no AXN, já estava na minha lista há um bom tempo, mas confesso que me surpreendi, pois sem querer passando canais eu havia assistido ao seu final dezenas de vezes... sempre dava uma olhada na sinopse e via o nome Syd (como um drogado, o que lembra muito o Sid Vicious) e o nome do filme London (Sid era britânico e tocava nos Sex Pistols)... Enfim, havia uma relação indireta com a banda que eu tanto gosto mas eu nunca tive a oportunidade de assisti-lo e achava o final meio bobo pois não havia assistido ao filme completo.

Pra começo de história o filme não tem nada haver com a história dos Pistols ou do real Sid, mas me surpreendeu por ter um enredo bom, com temas interessantes e mesmo o personagem principal ser alguém muito impaciente e em muitos aspectos ignorante - quer tratar tudo de maneira prática e direta - há debates muito interessantes no filme, principalmente sobre o questionamento da existência de Deus, da sanidade mental e relacionamentos amorosos dando ênfase na visão masculina, e não poderia faltar é óbvio: drogas - mas sem aquelas lições de morais ridículas que já cansamos -.


"Não acredito num cara invisível controlando 6 milhões de pessoas. É como ainda crer no Papai Noel... simplesmente um conto infantil criado por adultos assustados com a ideia da própria morte"

Syd, no filme London

Posted on 14:28 In:




















Você, sem dúvidas, sempre foi capaz de levar todos os abismos para bem longe e transformá-los em simples sorrisos infantis.
Eu, na minha ingenuidade e rancor - que me fechavam de tudo e de todos - não sabia ao certo, no começo, o que fazer com tanto excesso de açúcar. Mas, acabei descobrindo por erros médicos, numa certa tarde, que não sou diabética.
Nessa mesma tarde você estava lá. Tudo que eu conseguia enxergar no meio daquele transe era você, por várias horas de pé ao lado daquela cama de hospital.
Confesso que era tudo que eu menos queria naquela época: ser vista naquele estado frágil e deplorável.
Fraca.
Hoje não encontro palavras para descrever o que senti, apenas: Sim, você estava lá. Ele sempre esteve "lá".
Naquele dia percebi que você era o único capaz de sugar algo frutífero da carne seca; do corpo oco de rancor e mágoas fúteis que eu guardava.
Não, não... Já esqueci... E lembrei que tudo aquilo já não há.
Só me importa agora estar com você, pois eu sei que assim tudo se mantém inesperado e renovado... Você sempre me ensinou a tornar os fantasmas das lembranças em palavras risíveis, e eu sempre aproveitei de tudo um pouco nesse nosso, já longo, aprendizado.
Sim senhor!

Posted on 08:54




























"Como é uma mudança brusca de uma sensação tão diferente para outra totalmente oposta" - ele disse.

Disse e não disse. Pois dizia sem saber que assim, dessa simples maneira, estava descrevendo perfeitamente bem os relacionamentos amorosos humanos.

Manílov

Posted on 08:38 In:




























Só Deus poderia dizer como era o caráter de Manílov. Existe uma espécie de gente da qual se diz: é gente assim-assim, nem isto nem aquilo, nem na cidade Bogdan nem na aldeia Selifan, como diz o provérbio. Talvez tenhamos de incluir Manílov nesta categoria. Seu aspecto exterior era vistoso. Os traços fisionômicos não eram desprovidos de simpatia, mas nessa simpatia havia uma porção excessiva de açucar; nos seus modos e maneiras havia algo que se insinuava, procurando conhecer e agradar. Tinha um sorriso atraente, era louro, de olhos azuis. No primeiro minuto de conversa com ele não se escapava de dizer: "Que homem agradável e encantador!" No minuto seguinte, não se dizia nada, e no terceiro, já se dizia: "Que diabo de coisa!" - e se tratava de afastar-se dele o mais possível; mas quem não se afastasse sentiria um tédio mortal. Não adiantava esperar dele uma palavra mais viva ou pelo menos mais irritada, como se pode ouvir de qualquer pessoa quando se toca num assunto que mexe com ela.

Odeio

Posted on 08:22 In:




























Odeio o ser humano
Odeio ser humana
Odeio fingir ser
Odeio precisar ser
Ultimamente eu venho odiando.
Odeio as pessoas
Odeio o que elas podem se tornar
Odeio o lado que pensam chamar de "humano"
Odeio quem se cala
Odeio ainda mais quem fala sem pensar
Odeio quem é sincero
Odeio mais ainda quem não possui sinceridade na voz
Odeio quem mente para ser
Odeio quem mente pra não ser
Ultimamente percebi que meu gato tem sido uma das criaturas mais decentes com quem convivo. E ele vomita bolas de pêlo.
Não é engraçado. Como saber se somos melhores que tudo isso? Com nossas bombas nucleares e falsos regimes?
Tudo isso também já foi um falso conforto de "segurança".


Hoje Não Escrevo

Posted on 16:20 In:




















Chega um dia de falta de assunto. Ou, mas propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos.

Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda a natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olha na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, purê de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.

[...]

Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Conclui que não há assunto, quer dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira assuntando, assuntando.

Então hoje não tem crônica.

Foi

Posted on 04:40 In:




























Faz tempo que estou sem palavras.
Nada fora do comum quando se vive alheia à prescrição do que a vida manda.
Minha vida seguia num rumo só lentamente (sem olhar pros lados)... Posso afirmar que isso terminou hoje - quando o vi com as malas nas mãos -.
Ele esvaziava o guarda-roupa e punha tudo na mala.
Enquanto eu estava ali.
Ele limpava o criado; tirava as gavetas, os livros, filmes e o velho xadrez.
Enquanto isso, eu ainda estava ali com o olhar mais fixo do que nunca.
Quando finalmente guardou os cinzeiros e os cigarros, era impossível esconder de mim mesma que estava realmente indo embora. Mas foi possível deixar as lágrimas rolarem secretamente no quarto felizmente tão escuro.
Que além de escuro tornou-se vazio... abafado... morto.
Eu não conseguia lidar com a falta dos livros e dos cigarros, arruinavam a peça e descaracterizavam os atores...
A cortina não podia se fechar.
Eu ainda estava ali... mas dessa vez a cama era imensa e eu fechava os olhos, pedindo pra conseguir dormir e me perguntando o por que tínhamos de seguir caminhos tão distantes.

Vidro

Posted on 17:17 In:





















Eu não pertenço a você.
Não sou de seu direito ou posse.
Não sou sua boneca, seu objeto de vidro inestimável.
Eu estou livre, eu tenho sonhos e por enquanto eu ainda sinto.
Eu nunca me senti presa com você, e isso sempre me fez te amar cada vez mais... mas hoje eu pude perceber que você, no seu vago silêncio, começa a me afogar.
Me mantém no escuro, "sem rumo e entre seres vazios".

Lúcio

Posted on 06:58 In:





















"Algumas coisas só precisam ser realizadas, a breve sensação de realização, do inesperado e até do mistíco impenetrável."
Foi o que Lúcio me disse depois de tomar mais da metade da cartela de um remédio que ele nem fazia idéia do que era. Só sabia que era sua, sua vida, sua impenetrável vida. E ele fazia dela o que bem entender.
O quarto estava todo quebrado, o porta retrato amassado de tantas reviravoltas de sentimentos com os presentes na foto. Quebrado, remendado, quebrado, remendado... já virara rotina.
Mas será que assim como o porta retrato, seus pensamentos frustrantes e falhos de morrer caíriam também na sua fúnebre rotina?
Felizmente, ou talvez não, o remédio não fez efeito algum, além de uma forte dor de estômago e insônia.
Talvez, algo o fez ficar. Talvez ele devesse viver. Mas não consigo lhe responder o porquê, e cada vez que eu vejo seus olhos desesperados me perguntando, me questionando, procurando a solução nos meus... me sinto a pior das criaturas do mundo.
Porque alguém merece tais sentimentos?
Eu disse que não posso colar os cacos de vidro do seu espelho, nem posso lhe livrar dos pensamentos mórbidos... frequentes.
Mas o que me faz pensar que sou tão diferente assim dele? O que o fez pensar que é tão diferente de mim? Será que em cada um de nós existe um Lúcio que um dia chega no fundo do poço e no outro retorna? Mas e o que acontece com pessoas como Lúcio que caem nesse poço e sinplesmente não conseguem retornam?

O Fim não tem Fim

Posted on 23:18 In:




















Hoje de manhã, como todo dia, tomei um banho e comecei a arrumar a casa ouvindo música. De repente me deparo com uma frase sendo repetida várias vezes: "The end has no end.../O fim não tem fim..)".
Nesse momento, comecei a ir a fundo nessa frase e interpretar seu significado dentro das relações humanas e de minha própria vida. No mesmo instante, a primeira coisa que me veio a cabeça foi um rosto antigo e cheio de rancor que tive de rever ontem durante toda a noite...
Não é simples ignorar as pessoas que guardamos inimizade. Não gosto, e nem pretendo me manter fria a ponto de ignorar alguém - mesmo pessoas que já causaram profundo dano algum dia na minha vida.

O fim não tem fim, pois o próprio fim significa o começo de uma atenção negativa voltada pra alguém. Aquela pessoa sempre estará lá, conseguirá finalmente ser importante, ter atenção, mesmo que negativamente.

O fim prolongado também me fez lembrar outras pessoas que não vejo há quase um ano, e não tenho vontade de ver um dia sequer. Mas continuam sendo pessoas que são capazes de entrar na minha vida todos os dias por meio de lembranças ocasionadas novamente pelo fim.
Nunca gostei de tais lembranças, mas eu sei que são necessárias. Como também sei que um dia elas finalmente irão embora pra nunca mais voltarem.
Mas o fim também pode ter seu lado bom.
Foi o fim que me trouxe de volta o brilho nos olhos, levando pra longe todo o peso de um olhar avelã e trazendo de volta consigo um sentimento terno escondido em jabuticabas, que nunca imaginei um dia sequer ser capaz de encontrar.
O fim me trouxe o começo de muitos dias em antigos jardins de outrora.

Calendário

Posted on 21:57 In:



















Está quente aqui acolhida entre seus braços e abraços.
Queria neste dia olhar bem pros seus olhos, porque você não me sentes como eu te sinto, e tudo devido a uma cegueira incontrolável asfixiada por subjeções.
Porque eu sei em mim que o que é teu ainda não me pertence.
Na dor do meu prazer coberto pela percepção de que a partida está próxima, e ela é triste no meu anseio maior.
Já sei que em pouco tempo vou acordar e o corpo que eu conheci tão bem, não vai lá estar no quente dos lençois. Mas só por baixo do meu corpo frio de saudade.
Já sei que as minhas mãos são duras para a pessoa em que me tornei na minha frieza face plantada à falsos sorrisos.
Não sei viver mas sei fingir, abrigo-me à sombra da minha força que ainda não existe e por mais lágrimas que largue no chão - sem chão - deste trapézio que é só meu, eu sei que desta queda - que não é queda e só me fez escorregar - eu só vou me levantar mais alta.
Eu sei que no carinho que te tenho - e sempre tive - me levanto desta cama hoje com a certeza de ser em mim aquilo que sou: tão maior, tão mais forte e tão mais alta.

Esta será só a primeira de muitas noites que virão.

Posted on 01:06
















Não acredito mais no tão debatido "free love".

Pensamentos

Posted on 21:28 In:

Se Shakespeare nunca houvesse existido, perguntou-se, seria hoje o mundo muito diferente do que é? Será que o progresso da civilização depende dos grandes homens? Seria o destino do ser humano médio melhor hoje do que no tempo dos faraós? Contudo, continuou se indagando, será o destino do ser humano médio o critério para julgarmos a civilização?
Possivelmente não. Possivelmente o bem-estar da humanidade exige a existência de uma classe de escravos. O ascensorista do metrô é uma necessidade eterna.
Esse pensamento lhe foi desagradável. Sacudiu a cabeça. Para evitálo, acharia algum mode de se opor à superioridade das artes. Argumentaria que o mundo existe para o ser humano médio, que as artes são mero adorno imposto à vida humana e que não a expressam.
Nem Shakespeare é necessário. Sem saber precisamente por que queria desprezar Shakespeare e chegar à libertação daquele homem que fica eternamente à porta do elevador, arrancou bruscamente uma folha da sebe como um homem que se estica, no seu cavalo, para pegar um ramo de rosas ou encher os bolsos com nozes, trotando à vontade através das planícies e campos de um lugar conhecido desde a infância. Tudo lhe era familiar; essa curva, essa cancela, aquele atalho através dos campos. Passaria horas seguidas numa noite pensando assim, com seu cachimbo, vagando de um lado para o outro nas velhas e familiares planícies e pastos, que identificava pela história de uma campanha aqui, a vida de um homem de Estado mais adiante, por poemas e anedotas, e também por figuras ilustres, por este pensador, aquele soldado; tudo muito rápido e claro; mas por fim a planície, o campo, o pasto, a nogueira cheia de frutos e a sebe florida o levavam além da curva da estrada, onde sempre desmontava do cavalo, amarrava-o a uma árvore e prosseguia a pé, sozinho.
Era seu poder, seu dom, dispersar todas as superficialidades, encolher e diminuir, parecendo mais despojado e se sentindo até fisicamente poupado, sem contudo perder nada da intensidade de sua mente. Permanecendo de pé ali, naquela ponta de terra, voltado para a escuridão da ignorância humana, pensava que nada sabemos e em como o mar corrói o solo onde estamos - era esse seu destino, de todos os gestos e superficialidades, todos os troféus de nozes e rosas, tendo mirrado tanto, que se esquecera de seu próprio nome, manteve, mesmo naquele deserto, uma vigilância que não dispensava nenhuma imagem, nem se dispersava em visão alguma.

- Mas o pai de oito filhos não tem outra alternativa... - murmorou a meia voz. Deteve-se, voltou-se, suspirou e, erguendo os olhos, procurou a figura de sua esposa contando histórias para seu filho pequeno; encheu o cachimbo. Fugiu à visão da ignorância humana, do destino humano e do mar corroendo a terra onde pisamos, e que, fosse ele capaz de encarar fixamente, talvez tivesse levado a algum resultado; e econtrou consolo em insignificâncias tão pequenas, se comparadas com o magnífico tema que tivera diante dos olhos ainda há pouco, que se sentiu inclinado a reprovar esse consolo, desvalorizá-lo, como se o fato de ser apanhado feliz num mundo de misérias, para um homem honrado, constituísse o mais desprezível dos crimes. Era verdade; ele era quase completamente feliz; tinha sua esposa; tinha seus filhos; prometera que dali a seis semanas diria "algumas tolices" aos jovens de Cardiff sobre Locke, Hume, Berkeley e as causas da Revolução Francesa.
Mas isso, e o prazer que lhe proporcionava, as frases que compunha, o ardor da juventude, a beleza de sua mulher - tudo tinha de ser desvalorizado e dissimulado sob a frase "dizer tolices", porque, com efeito, não fizera o que poderia ter feito. Era um disfarce; era o refúgio de um homem que temia se apoderar de seus próprios sentimentos, que não podia dizer: É disso que eu gosto, é isto o que sou; e isso parecia bastante lastimável e desagradável a William Bankes e Lily Briscoe, que se perguntavam por que ele precisava dessas dissimulações, por que precisava sempre de elogios, por que um homem tão valente no terreno do pensamento era tão tímido na vida, e pensavam como ele era estranhamente respeitável e ridículo ao mesmo tempo.






























Quem culparia o capitão da esquadra condenada se, tendo-se aventurado ao máximo e esgotado toda a sua força, e tendo adormecido sem pensar muito se acordaria ou não, agora percebesse, por uma comichão nos dedos dos pés, que ainda vivia?
Em geral, não tinha objeção alguma quanto a viver; exigia apenas simpatia e uísque, e alguém para ouvir a história de seu sofrimento naquele mesmo instante.
Quem o culparia? Quem não se rejubilaria secretamente quando o herói tirasse sua armadura e, parando sobre junto à janela, olhasse sua mulher e seu filho - a princípio muito distantes, mas gradualmente se aproximando, até que lábios, livro e cabeça surgissem nitidamente diante de si, embora ainda adoráveis e estranhos devido à intensidade da solidão dele, ao passar dos séculos e ao findar das estrelas -, e, finalmente, colocando o cachimbo no bolso, curvasse sua cabeça diante da mulher? Quem o culparia se ele prestasse homenagem à beleza do mundo?





























Em algum momento de intimidade - quando histórias de grandes paixões, de amores malogrados, de ambições contrariadas se apresentavam a ela - poderia ter falado sobre quem conhecera, ou o que sentira e passara, mas nunca dissera nada. Estava sempre em silêncio.
Nesses instantes sabia - sabia sem ter aprendido. Sua simplicidade penetrava no que as pessoas hábeis falsificavam. A sinceridade de seu espírito a fazia dirigir-se às pessoas tão diretamente como um fio de prumo, e pousar sobre seu objetivo com a exatidão de um pássaro, o que dava a ela normalmente essa inclinação para a verdade que deleitava, tranquilizava, sustentava - falsamente talvez.

***

"Mas ela sabe menos da própria beleza que uma criança", dissera o sr. Bankes ao pousar o receptor, atravessando a sala para ver o progresso dos trabalhadores no hotel em construção atrás de sua casa.
Assim, se pensava apenas em sua beleza, precisava lembrar-se dessa vitalidade, dessa agitação (os operários carregavam tijolos por uma prancha enquanto os olhava), e integrá-las na sua imagem; ou caso se pensasse nela apenas como uma mulher, era preciso dotá-la de uma certa excentricidade idiossincrásica; ou supor nela um desejo latente de se libertar da realeza de sua forma, como se a sua beleza e tudo o que os homens diziam sobre ela a aborrecessem, e ela quisesse ser tão-somente como os outros: insignificante.
Ele não sabia.

Rapsódia

Posted on 19:59 In:





















Os olhos dela, translúcidos de emoção, arrogantes de trágica intensidade, encontraram os dele por um segundo e pestanejaram à beira do reconhecimento; mas então, esboçando um gesto até o rosto, como para afastar, expulsar, numa agustiante e persistente vergonha, o olhar deles, que era absolutamente normal, Ramsay pareceu implorar-lhes que refreassem por um momento o que ele sabia ser inevitável, como se impusesse a eles seu próprio ressentimento infantil por ter sido interrompido.
Contudo, mesmo no momento da revelação, não seria completamente destroçado, estava decidido a reter algo dessa deliciosa emoção - essa impura rapsódia de que se envergonhava, mas com a qual se deleitava.

Palavras não são tudo

Posted on 08:30 In:





















Por mais que seja fácil odiar alguém ou suas ações, perdoar pode ser bem mais simples do que parece.
A questão é apenas o quanto você se importa e ama quem errou.
Hoje de manhã, após relembrar uma longa conversa noturna, percebi que a questão não é apenas não sentir nada pelo que o outro fez, ou simplesmente não se importar...
Tem pessoas que ocupam um lugar tão vasto em nossas vidas, que já estão perdoadas antes mesmo de pisarem na bola.
Mas só porque alguém diz que sente muito não significa que o erro nunca existiu.
Não é simplesmente só perdoar. E o que fica? Ou indo um pouco além, o que não fica?
Perdemos confiança, respeito e lealdade. Sobram apenas escombros: insegurança, anseio e uma angustia corrosiva no peito: será que vai acontecer de novo?
Aprendi da pior forma, que as pessoas na primeira chance que tiverem, agirão de forma desprezível. Principalmente se houver um rápido perdão.
Parece frio, mas acreditem, não é. Afinal, ninguém comete o mesmo erro duas vezes, se da primeira vez estiver sido claramente exposto e análisado - para quem o cometeu - exatamente o que houve de errado ali, e o que ele irá perder se isso acontecer de novo.
Isso me lembra muito Maquiavel ("Um líder deve ser amado e temido, mas se a primeira proposta não funcionar, melhor ser temido.") que de muitas formas foi julgado calculista, mas não podemos discordar que ele teve razão e apenas expôs o caminho mais fácil de lidar com a população, principalmente no surgimento de problemas.
Talvez isso não sirva só para os seguidores de Maquiavel, pois o amor pode ser estúpido o bastante a ponto de perder sentimentos recíprocos valiosos em troca de absolutamente nada.
Mas quem disse que se manter insensível é também uma tarefa simples?
O amor não basta*, nem nunca vai bastar.
Não pra
mim.




*É a segunda vez que essa frase é repetida aqui.
























Ele não disse nada. Tomara ópio.
As crianças diziam que tingia a barba de louro com ópio. Talvez.
O que lhe parecia óbvio é que o pobre homem era infeliz, e vinha para ali todos os anos como uma fuga; e mesmo assim, a cada ano ela sentia a mesma coisa: ele não confiava nela.
Dizia-lhe: "Vou à cidade. Quer selos, papel, fumo?", e o sentia estremecer. Não confiava nela.

Ele era descuidado; derramava coisas no casaco; tinha o cansaço de um velho sem nada para fazer na vida; e ela o pusera porta afora. Ela dissera, com seus modos odiosos: "Agora a sra. Ramsay e eu queremos conversar", e a sra. Ramsay pôde ver assim, com seus próprios olhos, as inumeras infelicidades de sua vida.

Teria ele dinheiro suficiente para comprar fumo? Teria de pedi-lo? Meia coroa? Dezoito pence?
Ah ela não podia suportar o pensamento das pequenas indignidades que ela lhe impusera. E sempre, agora (por quê, de alguma forma, àquela mulher), ele fugia dela. Nunca lhe contava nada. Mais o que mais podia fazer?
Ela lhe reservava um quarto ensolarado.
Na verdade, ela se desviava do seu caminho apenas para ser gentil.
Quer selos? Quer fumo? Aqui está um livro de que deverá gostar, etc.

Ofendia-a que ele lhe fugisse. Magoava-a. E ainda, fugia-lhe de forma errada, incorreta. E por isso, quando o sr. Carmichael fugia dela, como fez naquele momento, refugiando-se em algum canto onde comporia acrósticos sem fim, não se sentia repudiada apenas em seu instinto, mas consciente da mesquinharia que havia em alguma parte dentro dela e da imperfeição dos relacionamentos humanos, e de como as pessoas era desprezíveis e egoístas, por mais que se esforçassem.

Posted on 18:34 In:





























Era tão doloroso lembrar-se de que as relações humanas são falhas e não resistiam ao exame a que ela as submetia em meio ao amor e sua ânsia de veracidade; no instante em que lhe era penoso sentir-se convencida da sua indignidade de cumprir suas funções devido a essas mentiras, esses exageros...

Posted on 22:16





























Nem tudo são flores,
mas quando estou com você,
em qualquer jardim pode estar ensolarado.





























Você é mais, muito mais.
Não há como descrever melhor o que você representa na minha vida além de "mais", sempre mais do que eu poderia esperar.
Mais do que eu poderia idealizar, criar ou até mesmo moldar.
É maior e mais profundo do que todo desejo e anseio que ousaram se aproximar.
Romances baratos e diabéticos não podem ser mais mal contados do que o que tivemos...
Nem "1001 filmes" que ilustraram tantas noites mal dormidas com suor e gargalhadas naquela cama.
Você sabe me fazer sorrir, sorrir de verdade.
Poderia ter sido rápido, e teve tudo para ser passageiro... mas se mantém estranhamente pleno.
Tem toda razão, você não é o homem que eu vejo em você.
Isso porque jamais pude idealizar tal homem
Eu apenas vejo o único homem que sei amar.


19/08/09










Under Control

Posted on 12:03 In:





















Eu não quero desperdiçar o seu tempo.
Eu só quero dizer - Eu tenho que dizer,
Nós não temos controle sobre isso
Mas estamos sempre sob controle

Eu não quero do seu jeito
Eu não quero entregar tudo por você
Eu não quero saber...

Eu não quero mudar sua cabeça,
Eu não pretendo mudar o mundo.
Eu só quero te ver passar.
Eu só quero te ver passar.

"Nós éramos jovens, querida"
Nós não temos nenhum controle
Nós estamos fora de controle

Eu não quero fazer do seu jeito
Eu não quero mudar sua cabeça,
Eu não quero desperdiçar o seu tempo.
Eu só quero saber que você está bem;
Eu tenho que saber se você está bem.

"Você é jovem, querida"
Por enquanto,
mas não por muito tempo sob controle.



























Bruscamente, como se o movimento da mão dele tivesse libertado Lily do peso das impressões acumuladas, essas inflaram e extravasaram, numa pesada avalanche, em tudo que ela sentia por ele.
Era só uma sensação.
Então, como a fumaça, elevou-se a essência do ser do sr. Bankes. E agora havia outra sensação. Sentia trespassada pela intensidade de sua percepção: era sua severidade; sua bondade.
Eu o respeito (dirigia-se a ele em silêncio) em todos os seus átomos; você é extremamente altruísta; é mais dedicado que o sr. Ramsay; é o melhor ser humano que conheço; não tem mulher nem filho (ela ansiava por confortar sua solidão), você vive para a ciência (involuntariamente fatias de batatas surgiram diante de seus olhos); elogiá-lo seria um insulto para você; é generoso, puro de coração, um homem heróico!

Em que resultava tudo isso então? Como julgar os outros, pensar sobre os outros? Como se acrescentava uma coisa à outra e se concluía que era afeto ou desafeto o que se sentia? E que sentido atribuir a essas palavras, afinal?
Ela estava de pé, perto da pereira, aparentemente transtornada e inundada pelas impressões sobre esses dois homens.
Seguir o pensamento dela era como seguir uma voz que fala rápido demais para que se possa tomar nota do que diz. E a voz era a sua própria dizendo, sem que lhe sugerissem nada, coisas inegáveis, eternas, contraditórias, tanto que mesmo as fendas e saliências no tronco da pereira estavam irrevogavelmente fixadas ali por toda a eternidade.





























Ali estava ele de pé, esperando-a, na sala da casinha acanhada aonde ela o trouxera, enquanto ela ia um instante ao segundo andar ver uma mulher. Ouvia seus passos rápidos em cima; ouvia sua voz alegre e logo depois baixa. Olhou os guardanapos e caixas de chá, e as sombras dos globos, enquanto esperava, bastante impaciente, ansioso por voltar para casa e decidido a levar a sacola dela. Então ouvi-a sair; fechar a porta; dizer que deveriam manter as janelas abertas e as portas fechadas (devia estar falando com uma criança). De repente, surgiu, parou por um instante em silêncio (como se tivesse ficado representando lá em cima, e por um momento voltasse a ser ela mesma agora), quase imóvel, diante do quadro da rainha Vitória, com a fita azul da Ordem da Jarreteira. Subitamente, ele descobriu: ela era a pessoa mais bela que conhecera.
Com estrelas nos olhos e véus no cabelo, com ciclamens e violetas selvagens – mas em que despropósito estava pensando? Tinha no mínimo cinqüenta anos e oito filhos. Caminhando por campos floridos e levando ao peito botões esmagados e carneiros caídos; com estrelas nos olhos e vento no cabelo... Ele segurou sua sacola.
- Adeus, Elsie – disse ela, e subiram a rua, ela segurando a sombrinha, muito aprumada, andando como se esperasse encontrar alguém na próxima esquina. Pela primeira vez em sua vida, Charles Tansley sentiu um orgulho extraordinário; um homem escavando num bueiro parou de cavar e olhou-a; deixou o braço tombar e olhou-a. Charles Tansley sentiu um orgulho extraordinário; sentiu o vento, os ciclamens e as violetas, pois andava com uma mulher bela pela primeira vez em sua vida. Segurou sua sacola.


- Serpente! - gritou a Pomba com estridência.

- Não sou serpente nenhuma! - disse Alice indignada. - Deixe-me em paz!

- Serpente, repito! - inssistiu a Pomba, mas em tom mais moderado, e acrescentou, com uma espécie de soluço: - Já tentei tudo, todos os lugares, mas nenhum parece dar certo!

- Não tenho a menor ideia do que você está falando - disse Alice.

- Tentei todas as raízes das árvores, tentei as ribanceiras, tentei as cercas... - continuou a Pomba, sem lhe dar atenção - mas essas serpentes! Nada as satisfaz!

Alice estava cada vez mais intrigada, mas achou que era inútil dizer qualquer coisa até que a Pomba terminasse de falar.

- Como se não bastasse ter de chocar ovos - disse a Pomba - ainda tenho de vigiar as serpentes noite e dia! Há três semanas que não consigo pregar o olho.

- Sinto muito esses aborrecimentos todos - disse Alice, que estava começando a entender.

- E justamente quando arranjei a árvore mais alta da floresta, justamente quando pensava estar livre delas afinal, elas parecem vir se retorcendo lá do céu! Serpente, ugh!

- Mas eu não sou sepente, já lhe disse - protestou Alice. - Sou uma... sou uma...

- Bem, você é o quê? - disse a Pomba. - Estou vendo que está tentando inventar alguma coisa!

- Eu... sou uma menina - disse Alice um pouco hesitante, pois se lembrava das inúmeras mudanças que sofrera naquele dia.

- Uma linda estorinha, na verdade! - disse a Pomba com profundo desdém. - Já vi uma porção de meninas na minha vida, mas nunca vi um pescoço tão grande! Não, não! Você é uma serpente, não adianta negar isso. Não vai me dizer que nunca provou um ovo!

- É claro que já comi ovos - disse Alice, que não sabia mentir - mas as meninas comem ovos normalmente, tanto quanto as serpentes, você sabe.

- Não acredito nisso - disse a Pomba - mas se comem, então elas são uma espécie de serpente. É tudo que eu posso dizer.

A ideia era tão nova para Alice que ficou silenciosa durante um ou dois minutos, o que deu à Pomba a oportunidade de acrescentar: - Você está procurando ovos, sei disso muito bem. E que me importa então se você é uma menina ou uma serpente?





















- De que tamanho você quer ser? - indagou.

- Oh, não faço tanta questão de tamanho - apressou-se Alice a dizer - só que ninguém gosta de estar mudando tanto assim, a senhora sabe.
- Não, não sei.

Alice não fez comentários: nunca em sua vida fora tão contestada, e sentiu que estava começando a perder a paciência.

- Está satisfeita agora? - perguntou a Lagarta.

- Bom, eu gostaria de ficar um pouquinho maior, se a senhora quer saber - respondeu Alice. - Oito centímetros é uma altura tão insignificante!

- É uma altura boa, ora essa! - disse a Lagarta encolerizada, erguendo-se ao falar (ela tinha exatante oito centímetros de altura).

- Mas eu não estou acostumada! - argumentou a pobre Alice em tom consternado. E pensou: "Só queria que essas criaturas não se ofendessem tão facilmente".

- Com o tempo vai se acostumar - disse a Lagarta, e colocando o narguilé na boca, começou a fumar de novo.





























Você esta velho, Pai Joaquim - disse o rapaz -
E seu cabelo tão branco como a neve.
Mas de plantar bananeira ainda é capaz.
Na sua idade, você acha que deve?

Quando eu era jovem - respondeu Pai Joaquim -
Temia que o meu juízo se estragasse.
Mas hoje sei: não tenho nenhum, e assim
Vou plantando para que o tempo passe.

Você está velho, já disse - o jovem inssiste -
E engordou de modo descomunal.
Como é que na soleira ainda resiste
Entrar dando um salto mortal?

Quando eu era jovem - o velho diz pacato -
Mantive os membros rijos e fortes
Graças a este unguënto. É bem barato:
Posso vender-lhe dois pacotes?

Você está velho - disse o jovem - e seus dentes
Pra mastigar já estão fracos demais.
No entanto, devora um ganso, é surpreendente.
Me diga: como é que você faz?

Quando jovem - disse o pai - eu era um justo
E discutia tudo com a patroa.
Por isso as mandíbulas, digo sem susto,
Ganharam tal força: não foi à toa.

Você está velho - disse o jovem - e ninguém diz
Que sua vista ainda está certa.
Mas equilibra enguia no nariz!
Quem lhe deu uma cabeça tão esperta?

Já respondi três vezes tais pilhérias
- disse o pai - e não banques o profundo!
Pensas que vou ficar ouvindo lérias?
Some, ou te dou um pontapé nos fundos!

Azul

Posted on 08:38 In:




























Eu tenho pensado em você,
Principalmente depois que você se vai.
Eu fico sempre aqui, pensando muito em você.
Eu não sei se isso é algo bom ou ruim,
Só sei que passo horas pensando em você.
Não sei ao certo se te quero longe ou perto,
Se você me faz feliz ou estraga meus sonhos e planos,
Se me salva ou me destrói.
Não sei se a minha constante necessidade de estar em seus braços ou de ouvir sua voz me embalando como uma menininha para dormir, são desejos saudáveis ou doentios.
A minha mente me traiu de todas as formas, mas as noites podem ser de um azul tão profundo e belo, que a insanidade em que me afogo só me faz pensar mais uma vez em você.






Mariana

Posted on 16:54 In:





























Mais um fim de noite incompleto, uma noite em que Mariana escrevia.
-Mariana! Mariana!
Não queria escutar. A porta continuaria trancada e a janela aberta a espera de qualquer acontecimento que valha a pena.
Só pensava em coisas estúpidas, e já não sabia mais o porquê rabiscava poemas tão mórbidos no pequeno caderno. Não entendia nem um pouco o porquê de sentir tanto ódio.
Ódio de todas as substâncias que o levavam para longe.
"Nenhuma droga pode te levar para longe de si mesmo." - Mais um rabisco no velho caderno reciclável. -
Mariana se fechava diante de problemas, sabia que era inútil, mas simplesmente não conseguia ter outra reação.
Além disso, realmente acreditava que milagrosamente as pessoas poderiam ler a sua mente.
"Vá tome mais um gole, está tudo bem - a mente grita sem palavras."
Tola Mariana, não há corpos perfeitos, cuidados excessivos, objetos materiais, nem palavras ou substâncias químicas que podem saciá-lo.

Natasha

Posted on 12:09 In:



























Tem 17 anos e fugiu de casa
Às sete horas na manhã no dia errado
Levou na bolsa umas mentiras pra contar
Deixou pra trás os pais e o namorado

Um passo sem pensar
Um outro dia, um outro lugar

Pelo caminho, garrafas e cigarros
Sem amanhã, por diversão, roubava carros
Era Ana Paula, agora é Natasha
Usa salto quinze e saia de borracha

Um passo sem pensar
Um outro dia, um outro lugar

O mundo vai acabar
E ela só quer dançar
O mundo vai acabar
E ela só quer dançar, dançar, dançar

Pneus de carros cantam
Thuru, Thuru, Thuru, Thuru...

Tem sete vidas mas ninguém sabe de nada
Carteira falsa com a idade adulterada
O vento sopra enquanto ela morde
Desaparece antes que alguém acorde

Um passo sem pensar
Um outro dia, um outro lugar

Cabelo verde, tatuagem no pescoço
Um rosto novo, um corpo feito pro pecado
A vida é bela, o paraíso é um comprimido
Qualquer balaco ilegal ou proibido

Um passo sem pensar
Um outro dia, um outro lugar

O mundo vai acabar
E ela só quer dançar
O mundo vai acabar
E ela só quer dançar, dançar, dançar

Pneus de carros cantam
Thuru, Thuru, Thuru, Thuru...




Efêmero

Posted on 18:54 In:


















O amor é o efêmero da vida,
A parte que se foi
Antes mesmo de tentar permanecer,
Que não sabe se ama alguém
Ou se apenas ama o simples fato de ser capaz de amar.

O amor é açucar
A paixão diabetes
E nós os tolos, que apesar de tudo, estão dispostos a provar.

Razorblade

Posted on 18:15 In:

Oh, lâmina de barbear,
me encara
me encharca o rosto grotesco
o metal cintilante sussurra convidativo
o espelho se tornou lamentações despedaçadas
Oh, lâmina de barbear,
você realmente pode levar tudo embora?
Não, não pode.
É simplesmente uma lâmina de barbear no canto da pia.
O chão de pedra continua mórbido e gelado
como tudo que eu almejei ter um dia.












Awful!

Posted on 12:30 In:






















He's drunk, he tastes like candy, he's so beautiful
He's so deep like dirty water
God, he's awful!

You're lost?
oh, where's your daddy? -it's so awful

Swing low, sweet cherry, yeah its awful
You've got your youth, yeah its awful
I was punk, now i'm just stupid
I'm so awful!











A lagarta e Alice olharam-se por algum tempo em silêncio. Finalmente, a Lagarta tirou o nargulé da boca e perguntou, em voz lânguida e sonolenta:

-Quem é você?

Não era um começo de conversa muito animador. Um pouco tímida, Alice respondeu: - Eu... eu... nem eu mesmo sei, senhora, nesse momento... eu... enfim, sei quem eu era, quando me levantei hoje de manhã, mas acho que já me transformei várias vezes desde então.

- Que é que você quer dizer com isso? - perguntou a Lagarta, rispidamente.- Explique-se!

- Acho que eu mesma não posso explicar - disse Alice - porque eu não sou eu, está vendo?

- Não, não estou.

- Acho que não posso explicar melhor - replicou Alice com polidez - porque eu mesma não consigo entender, pra começar. E depois, ter tantos tamanhos diferentes num dia só é muito confuso.

- Não, não é.

- Bom, não sei. Talvez a senhora ainda não tenha passado por isso - continuou Alice - mas quando tiver de se transformar numa crisálida... pois isso lhe acontecerá algum dia, não é? ...e, depois disso, numa borboleta, tenho a impressão de que achará meio esquisito, não?

- Nem um pouco.

- Bom, quem sabe a sua maneira de sentir talvez seja diferente - disse Alice - mas o que sei é que tudo isso pareceria muito esquisito para mim.

- Você! - exclamou desdenhosamente a Lagarta. - E quem é você?

Isso levava tudo outra vez ao início da conversa.

Ole black n brown eyes

Posted on 10:25 In:





















Nas raras noites que eu me pego lembrando de você, eu não sinto sua falta, nem te sinto de qualquer forma que não seja lamentável... Mas confesso que sinto falta de te ouvir cantando pra mim.
Sinto falta de deitar naquele velho sofá e esperar seus olhos procurarem os meus e cantarem para mim: "Ole black and brown eyes..."
Um sorriso e nada mais.
Não sinto falta de te sentir.
Não sinto falta de beijos, nem do gosto áspero, e confesso que a essência de tudo era nauseante.
Mas sinto falta dos olhos, das misturas de cores e de amores que apodreceram num velho sofá.

























- Meu bem, eu sei que acabei de chegar... - hesitou por um instante - mas é que eu terei de viajar de novo amanhã... de manhã.- Pronto, tinha falado e não queria olhar nos olhos dela -.
-Mas, de novo? - Disse baixando os olhos -
-Sim... Eu sei que tenho estado longe, mas eu recebo pra isso e preciso realmente ir.
- respirou fundo tentando esconder o olhar desapontado e disse - Claro, eu entendo. - e realmente sempre entendia, entendia até demais - Sentirei sua falta.
- Amo você.


***


Durante uma tarde tranquila sem fazer nada, a campainha toca.
Não esperava ninguém, muito menos quem encontrou de pé na porta com olhos superiores que ela não sabia o porque de tal sentimento de superioridade.
Disse um breve "oi" e foi entrando ferozmente pela casa. Olhava tudo, queria ver tudo de perto -talvez perto até demais que se tornava doentio -.
Finalmente quando não havia mais jeito de criar brigas pela invasão, a garota parou com os olhos fixados e investigadores para um grande quadro de fotografias e disse no mesmo tom autoritário que indicavam seus olhos:

- Não vejo minha irmã.
- Também não vejo - a ironia é um eufemismo perfeito para situações onde o instinto animalesco fala mais alto -
- Você mandou jogar isso fora também?
- O que mais eu mandaria jogar fora? Já que sou tão ruim a ponto de ordenar e manipular.
- Jogou fora uma estrutura que era perfeita. Perfeita até você se incluir tomando o lugar de outros e fazer tudo ruir. Você não é como nós, nunca ferá parte de coisa alguma.
-já estava cansada da mesma ladainha e resolveu sair da posição de calma - Eu nunca faria isso, não me acho no direito de manipular ninguém, como também não tenho vontade alguma de fazer parte da sua brincadeirinha doentia. Eu não quero ser e muito menos agir como... - parou de repente. Não valia a pena, e só -.
- Que seja. Mas também não vejo fotos suas. Estranho não?
-Momentos importantes não podem ser registrados em fotografias - não valia a pena continuar. Deu um longo suspiro - Não tenho o direito de "invadir residências" e de entrar em assuntos que não são da minha conta. Ninguém tem algum direito de julgar as decisões de quem ama. E sinceramente, esse quarto não é meu para eu saber qualquer informação concreta pra sua brincadeira de interrogatório.
- Ótimo, o joguinho acabou então. Aqui não é nem sua casa.
- Nem por isso te dá o direito de ir entrando.
- Não se preocupe, minha consciência está limpa quanto a isso. Pois, se alguém como você entrou e permaneceu por tempo até demais...
-um forte empurrão e uma porta batendo com vigor- Mas que diabos essa infeliz veio fazer aqui com essa cena tão patética?


Cigarros

Posted on 04:36 In:




























A suavidade da fumaça alta e impregnada no seu corpo
No meio de certa noite quente e chuvosa
No meio de uma rua deserta e serena
Em meio aos respingos no vestido,
Eu aguardo
Fixando os olhos fielmente na esquina da rua,
Onde espero encontrar um rosto molhado

A fumaça morna conforta,
Enlaça-se no vestido e carrega todos os anseios do mundo

E o seu vício me abre o desejo
E o meu vício me leva ao aroma fixado na pele
O seu vício nos cigarros
O meu vício no teu cheiro com cigarros
O vício nas promessas tragáveis
O vício em deixar para trás toda uma vida cancerígena
Em sentir um prazer sombrio com todos os nossos vícios

Olhou-me nos olhos e disse sereno:
“Você escolhe demais pequena, escolhe tanto, que esse mundo todo aos teus pés se transforma rapidamente em fumaça”

Saiu pela janela do quarto
Saiu para comprar cigarros e não voltou
Mas continua sempre ali, como a fumaça.

Beautiful

Posted on 12:09 In:



























Beautiful, you're beautiful, as beautiful as the sun
wonderful, you're wonderful, as wonderful as they come

And i can't help but feel attached
to the feelings i can't even match
with my face pressed up to the glass, wanting you

Beautiful, you're beautiful, as beautiful as the sky
wonderful, it's wonderful, to know that you're just like I

And i'm sure you know me well, as i'm sure you don't
but you just can't tell
who'll you love and who you won't
and i love you, as you love me
so let the clouds roll by your face

we'll let the world spin on to another place
we'll climb the tallest tree above it all
to look down on you and me and them

don't let your life wrap up around you
don't forget to call, whenever
i'll be here just waiting for you
i'll be under your stars forever
neither here
nor there
just right beside you

Pão

Posted on 07:32 In:


















O pão nosso de cada dia nos dai hoje.
Pão recheado de paradoxos.
Pão que asfixia, mas não mata.
Pão que alimenta.
Inssiste em impedir o óbito ao acaso incostante.
Por outro lado, todavia...

Quem disse que o fraco é aquele que escolhe apenas não comer?



Cuida de mim - O Teatro Mágico

Posted on 15:11 In:



























"Pra falar verdade, às vezes minto
Tentando ser metade do inteiro que eu sinto
Pra dizer as vezes que às vezes não digo
Sou capaz de fazer da minha briga meu abrigo
Tanto faz não satisfaz o que preciso
Além do mais, quem busca nunca é indeciso
Eu busquei quem sou;
Você, pra mim, mostrou
Que eu não sou sozinho nesse mundo.

Cuida de mim enquanto não esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo que sou quem eu queria ser.
Cuida de mim enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo, enquanto fujo.

Basta as penas que eu mesmo sinto de mim
Junto todas, crio asas, viro querubim
Sou da cor, do tom, sabor e som que quiser ouvir
Sou calor, clarão e escuridão que te faz dormir
Quero mais, quero a paz que me prometeu
Volto atrás, se voltar atrás assim como eu.
Busquei quem sou
Você, pra mim, mostrou
Que eu não sou sozinho nesse mundo.

Cuida de mim enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo que sou quem eu queria ser.
Cuida de mim enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo, enquanto fujo, enquanto finjo."



O amor vê cara, vê coração e vê saldo de conta.
O amor vê carro, casa e perfume Dior.
Chora por desconto e corre em liquidação.

O amor procura o fácil, belo e de qualidade - sem esquecer o parcelamento de quatro vezes no cartão-
Leve agora e pague depois
Se o produto estiver estragado? A culpa é de qualquer outro por aí...

O amor só existe de forma pura na infância, em Branca de Neve ou Cinderela não há nenhum tipo de cobranças. E mais tarde descobrimos, que todo esse amor de conto de fadas, serviu apenas para o lucro de cineastas rechonchudos.
Mas porque tais produtores não passam a mensagem real?
Será que não percebem a lavagem cerebral infantil que criam?

A Disney é a maior criadora de futuros relacionamentos frustrados, criados ao léu e embasados na ilusão.
Pois o amor do mundo real se consiste numa massa capitalista, que lucra com filmes e mostra apenas o lado feliz raramente existente.
O ser humano é um eterno masoquista que adora viver num plano superior ao próprio.
E afinal de contas, quem hoje em dia gostaria de assistir à sua própria e frustrante realidade?



*Escrito em alguma terça-feira de Setembro.