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About a Girl

Minha foto
"Nasci em 1992, no interior do estado. A dança-teatro e o cinema formaram meu primeiro imaginário: a palavra vinha como complemento das imagens. Quando descobri os livros, bem cedo, aceitei-os apenas como o lugar das palavras e das idéias, vendo as imagens a que remetiam ou sugeriam, como fantasmas imponderáveis e sem substância, descabidos, impróprios para aquele tipo de veículo. Quando me pedem que fale de mim mesma, sinto o incômodo, pergunto: que imagem devo projetar? Tenho tantas. Acho que a melhor para o caso é a que passo nos próprios posts, de alguém que escreve mas não acredita nos fantasmas das palavras, embora eles sejam inevitáveis. E a melhor forma de conviver sem temor com essas fantasias é jogar com elas, torná-las risíveis, desautorizá-las, de modo a evitar o poder técnico abusivo que tem quem escreve, para iludir o leitor."

Aos destinatários destas palavras

"Pra dilatarmos a alma
Temos que nos desfazer
Pra nos tornarmos imortais
A gente tem que aprender a morrer
Com tudo aquilo que fomos
E tudo aquilo que somos nós"


O Teatro Mágico

Quem lê

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A Tereza que abandonei

Posted on 10:24 In:




























Sempre que me via nos braços de Miguel, me sentia como uma Tereza*, aquela criança ingênua e até mesmo frágil, entorpecida de amor. Tamanha doçura fazia fechar os olhos pro mundo, pras pessoas e pros rascunhos. Era cuidado que transbordava, era sua boneca de porcelana, tão pequena e perfumada. Sim, como era bem cuidada...
Sentia o abraço quente, a comida na mesa, os pés tão pequenos e delicados em cima dos de Miguel, caminhávamos assim para o quarto, com meus pés pequeninos em cima dos dele, tão grandes. Sorriamos, caíamos, eramos uma pessoa só.
Estava segura, tão segura... se perguntassem do quê, não saberia responder. Se perguntassem porque tudo aquilo não foi o suficiente, saberia menos ainda.
Então, certo dia, fugiu. Fugiu dos sonhos, dos braços fortes, da segurança e, no mais, levou todo o amor. Só não se deu conta de que o que amava era a fuga e não seu destino.
Não se deu conta que a leveza de Miguel não viveria sem o amor que fora levado, nada é tão forte assim... mas não se tratava de força, ele não merecia tudo aquilo... aquele amor tão puro nunca mereceu.
Abandonei Tereza ainda febril, não devolvi nem as malas. Ficou parada na beira da estrada com um exemplar surrado de Anna Karênina debaixo dos braços.
Braços que hoje só pertencem a lembranças do que um dia chamei de número seis.


*Referência a personagem de Milan Kundera do livro A Insustentável Leveza do Ser.

Sabina

Posted on 03:21 In:

Hoje me senti tão forte, erguida sobre toda aquela areia movediça. Ao mesmo tempo senti que não sei se desejo toda essa força, que tudo que fiz foi sujo e até mesmo proposital... esperando, sempre esperando por algo inominável que nunca pude ao certo dizer que amava.
A sujeira das minhas palavras ficou engasgada sobre o meu corpo, pelo seu cheiro nas minhas roupas. Me tornei Sabina*, livre, sem raízes no chão e no coração. Me tornei leve, nos lençóis, nas palavras e nos sabores... Propensamente usável de corpo e alma.
Porém, nunca nos sonhos, nos sonhos não poderia. A densa névoa negra que me persegue todas as noites me questiona: "Quem é você?" assim como a Lagarta um dia questionou Alice.
Me tornei a outra, a que subtrai sonhos, que espera, que usa máscaras e foge de quem a protegeu com amor infinito.
Hoje eu confesso que choro, mas não choro por mim e nem pela minha decisão de não engolir mais suas palavras secas. Eu choro por Miguel, choro por todos aqueles vinhos batizados de mercúrio que não foram suficientes pra me prender. O que já foi?
Sempre te vi leve, mas as manchas, como imaginei, foram inevitáveis. Pesaram toda uma história simplesmente pelo fato de você tentar tanto escondê-las... se tornaram ainda mais distorcidas, deformadas.
Penso que não posso fazer parte disso mais, não quero. É tanto peso e eu só enxergo a falta. Você falta, pesa e se tranca no seu País das Maravilhas, que consegue ter um buraco mais fundo que o meu... e como eu não posso... como cansei de tentar decifrar-te.
Sim, esse é meu adeus a Sabina que você chamou em mim, no mais, te agradeço por ela. Ela me fez crescer como nunca imaginei mas, por agora, o adeus também se amplia a você.
Adeus e por favor, não retorne... não até o fim desse agosto, que se tornou tudo, menos meu.


*Referência a personagem do livro de Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser.

Em Quadros

Posted on 00:04 In:



















Certo dia, buscou-me a Lua na janela, tão frágil banhada de novas cores. Mostrou-me que algumas de suas faces podiam ser tão alaranjadas quanto o sol. Tento entender o exato momento em que o escarlate tão fresco se misturou com tantas outras cores e se perdeu de vista... Tento entender tanta coisa enquanto espero, enquanto procuro pelo que espero.
Venho hoje, dentre tantos sonetos e preâmbulos, despedir-me da ideia de despedir de você. É que esse mesmo texto começou como um texto de despedida que nunca seria entregue. Não consigo, na verdade nunca desejei realmente, acreditava apenas que era preciso.
Nesse tempo, te senti como algo jovem, tão efêmero... como uma idealização sã. Um querer ser adormecido e acordado tão repentinamente por tantas notas e claves. Um poder ser que me virou do avesso ao sussurrar nos meus ouvidos: deve ser, é preciso ser, es muss sein - e como eu queria que fosse.
Confesso que você é pra mim algo tão leve e vivo de uma forma invejável, mas não é exatamente isso o que procuramos tentando despertar o amor? O que desejamos intimamente e não podemos ser?
Eu só procurava entender, não penso em nada além do que desejo ter e ainda me encaro desajeitada pensando se realmente tenho. Você não procurava, mas encontrava longos cabelos vermelhos, escondidos nas roupas e lençóis... brincando descuidados com aquela saudade mansa que faz sorrir.
Ainda não sei o que espero, penso que um sinal, um convite ou apenas mais um copo de vinho uma noite... Enquanto isso me afasto dos fantasmas, é uma batalha diária, confesso. Seria bom ter mais verbos para flexionar, menos esperas e inseguranças...
Sim, eu me sinto tão insegura, sua leveza me traz calma mas nosso silêncio sela um pacto com a insegurança aguçada por outros. Talvez a culpa seja apenas da distância atual, que repele e ao mesmo tempo fascina, mas a mim também confunde. Mistura cores e aromas.
Todos os dias em que ele bate a minha porta, só vejo mar. A insegurança me assombra, procuro por você, encontro seus lindos olhos na minha mente, me fitando de forma serena. Não sei o que dizer a eles, não sei o que esperar encontrar neles... Amor? Paixão? Não sei ainda que expressão eles tomariam com palavras tão fortes assim, mas sei que sinto algo ainda inominável, que pulsa sem compreender... um querer desenfreado tão limpo e sonoro pelas palavras desenhadas, desejadas no seu corpo.
Kundera me ensinou sobre a Leveza e o Peso, você me mostrou-os da forma mais crua que já pude ver. Comprou pincéis, cavalete e pediu-me para pintá-las em aquarelas nuas. Não deixei, mas como eu queria ter aquelas suaves noites pra procurar nos teus quadros agora.
Me sinto nesse momento tão leve, não lamento nada mais, nem me culpo - como sempre o fiz na sua frente. Apesar de tantas brisas breves, eu continuo me perdendo a procura de um porto seguro naqueles olhos, nas palavras que busco deles. Por que ainda se prolongam? Não vêem que espero?
Tento não importar, permaneço por aqui, quietinha, encolhida com os meus sonetos, ando carregando só os nomes que você me deu.
Soube que a lua não visita sua janela há um tempo, que seus lençóis foram limpos e estão pesados. Eu senti suas correntes antigas com um arrepio gelado.
Ninguém esperava, mas permaneci imune, é uma empatia tão forte e singela a que sinto. Eu te compreendia, ainda compreendo... compreendo até seus fantasmas.
Quanto aos meus, me arrastam por aqui, desidratam até os ossos... confesso ter buscado seu nome muitas vezes para desautorizá-los, desmembrá-los... Mas me sinto tão perdida, os poetas já não trazem tantas respostas.
Confesso ainda ter caminhado por campos literários em que nunca fui chamada, talvez pelo desejo de não sentir mais esse medo seco, nem essa coragem falha. Nessas noites trêmulas, senti uma tremenda falta de chão quando, finalmente, dei de frente com histórias que não me pertenciam. O resto veio como consequência, com uma brisa perdida sem nome.
Não associei mais, não quis pensar no que aqueles olhos me diriam. Não faz, nem nunca irá fazer, parte da leveza das cores que me fazem querer você, de tantas formas e tão bem.
























Acordei às sete da manhã e não podia, nem se quisesse, dormir de novo. Andava pensando como seria se *Anna Karênina, depois da tumultuada trama com Conde Vroski, escolhesse não pular em frente aquele trem... o que aconteceria se, depois de tudo, Anna tivesse a opção de retornar para o Karênin? Com certeza, não teria sido um final tão belo e trágico, mas porque não se contentar com esses frágeis restos de uma vida passada tornando-os algum dia suspiros de sonhos almejados? Com o tempo o passado ministrado com o presente poderia, quem sabe, se tornar uma grande mentira contada tantas vezes a ponto de se tornar a verdade manipulada.

***

Alice tinha regressado do jantar, sentia-se fraca e não conseguia absorver tudo que lhe foi dito. Era fato que já sabia, secretamente, já sabia de cada palavra que havia saído aquela noite dos lábios de Caroline. Fez-se de ingênua para mostrar para Deus sabe quem que não se importava. Quando retornou sentiu uma fome não saciada, havia passado o dia todo com o almoço, mesmo assim não foi capaz de dizer, havia perdido a fome e nem percebia. Havia entregado todo o trabalho do corpo pra mente, queria ajudar Caroline, com todas as forças. Para isso escondeu todas as mortes, a da mãe, a do amor de Miguel e a de Amélia Passos. Caroline não precisava saber, não deveria saber, era preciso ser assim - es muss sein.
Agora, a vertigem contida estava estampada para todos. Caminhou pra casa, e como num lastro de um destino torto encontrou Miguel com meia garrafa de vinho na porta de sua casa. Não houve rodeios, ele disse exatamente tudo que deveria dizer, fez exatamente tudo que deveria fazer. Sempre soube ser o melhor amante com maestria.
Miguel era o verdadeiro pretérito mais que perfeito, tão distante e sempre de prontidão a dar mais do que o esperado. Não havia o que mudar no seu amor por Alice. Ele era melhor do que qualquer outro e ela sabia.
Não haveria nenhum outro como ele era, nenhum seria capaz de fazer o que ele fazia. Podia trazer a lua e as estrelas sem ela almejar ou pedir. Mas porque tamanho amor não a aquecia? Porque não a tocava?
Miguel não era capaz de ser, como pessoa, admirável... era ingênuo, na maioria das vezes, se passava por bobo perto dos outros. Defendia o que não sabia, falava demais sem medir as palavras, era todo coração.
Coração que se encontrava parado ali, de prontidão diante dela. Como seria reconfortante retribuir os sonhos de Miguel...
Não foi preciso tantas palavras, quando se deu conta, já estavam no quarto. Ele dizia tudo que qualquer mulher desejaria ouvir. Mas as doces palavras e juras de amor não eram retribuídas, mesmo assim, isso não o impedia de continuar... o amor é engraçado. Alice não podia ouvir, a porta da sua memória poética** estava fechada, por mais que Miguel batesse, era toda corpo.
Ele percebeu que ela não expressava as reações esperadas, sabia que ela nunca fora assim. Não disse nada, pelo contrário, acentuou as palavras, gestos, suspirou com mais amor. Buscou, inutilmente, trazer mais que as estrelas.
Alice não o impedia mas também não fazia nada, quando percebeu que aquilo tudo não era de desejo seu, se fechou num casulo compacto... e enquanto Miguel se esforçava para ascender a memória poética, ela se lembrava de Caroline... enquanto as mãos afagavam seus cabelos, ela recordava as de Caroline mais cedo segurando as suas firmemente e a empatia sentida pelos seus problemas... Logo, Alice sabia que ela iria partir e era preciso escutar, entender e deixar que fosse assim - es muss sein.
No meio de tantos pensamentos sentiu o membro rígido de Miguel se aproximar, aquila visão a chocou. Arruinava a peça e descaracterizava os personagens. Não pôde suportar mais, apertou os olhos em prantos, as lágrimas começaram a rolar... se tornou o que deveria ter sido desde o jantar mas não pode ser. A força finalmente se fora, virou mar.
Isso bastou para parar tudo, naquela noite ele soube que nada que dissesse ou fizesse tocaria a poesia, nada a faria voltar. Naquela noite ele também se fez mar.


*Romance de Leon Tólstoi
**Refere-se a um termo do livro A Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera

A Tangerina e o Bagaço

Posted on 22:19 In:





















Essa tarde andei pensando sobre a Tangerina e o Bagaço. Como as pessoas se confundem quanto a idealizações dos próprios fantasmas passados e como é fácil esquecer o que não faz parte deles.
O coração é algo engraçado, revive sentimentos maravilhosos, apaga o que não deveria ser lembrado e prega peças... insiste em (re)afirmar o que queremos mas já aprendemos que não devemos. Faz parecer tão simples e até mesmo belo. Até que um dia o que era fresco e firme murcha, só nos resta bagaços... pedaços desfeitos de começos perfeitos.
Andei lendo Sylvia Plath e me deparei com um trecho a respeito de tudo isso, Sylvia descreveu algo semelhante ao dizer que não é possível recomeçar a cada novo segundo. Que temos de julgar a partir do que já está morto. Como areia movediça, invencível desde o início...
Sim, o que está morto é invencível, mesmo assim, teimamos numa comparação onde só o passado ganha. Só há como vencer o passado renunciando o presente, renunciando seus fantasmas. É preciso voltar ao passado e descobrir se ele é maior do que todas as insatisfações que o fizeram se tornar um pretérito mais que perfeito, que só é perfeito nas armadilhas do coração.
Ah, mas como os mortos são repletos de ideais, como são amados! Tudo que é distante causa-nos uma intensa repulsa ou fascínio. Desvia-nos do novo, do desconhecido... Tão incerto. O passado é seguro, a segurança vence as insatisfações, apaga-as... Deixa-nos sorrisos dos começos e por fim, nostalgia.
Quando nos somos capazes de vencer o passado (quando é necessário que ele seja vencido) pode ser tão tarde.. a areia movediça não consta forças, se desfaz feroz sobre nossas cabeças.
Percebi quando vi que passei todo esse tempo fugindo, presa ao passado... e por fim, o relógio me anunciou as últimas badaladas.
Todos os medos, dúvidas e anseios que depositei sobre você, de repente recaíram sobre mim. Eu sei como é difícil... sei melhor do que ninguém. É maravilhoso reviver secretamente aquelas primaveras.
Portanto, se lhe restam dúvidas faça o que deve ser feito, vá buscar o que procura, viva o que ainda não foi resolvido. E.. se achar que deve retornar algum dia, volte... talvez eu ainda esteja por aqui...
Escolho não estar enquanto houver dúvidas, enquanto formos um remédio dos erros passados. Não porque eu não deseje o presente, eu o desejo, mais do que tudo. Mas o desejo como uma fina gaze diáfana, frágil mas clara... e tudo o que você tem me mostrado desde que abriu tumbas está prostrado, pesado.
Desejo es muss sein, sem fantasmas além de Bethoven.

Um Nome

Posted on 19:03 In:




























Me disseram certa vez, que é preciso coragem para escrever na primeira pessoa. Não sei o que esboçar quanto a minha dificuldade de escrever sobre Caroline... Me perco nas frases, confundo sentimentos e chego a me envergonhar. Me pego desviando de toda a gramática de uma forma estupidamente imatura.
Caroline... só eu a chamo assim sempre, a batizei dessa forma no momento em que ela me presenteou com um nome diferente do que eu costumava ter - ser conhecida. Meu novo nome poderia ter sido associado a tantas outras memórias do passado, mas mais do que tudo pertencia naquele momento as justificativas de Caroline.
No começo, confesso que não o sentia como substantivo próprio, mas logo cedi quando, com voz mansa, disse-me que era mais bonito assim e que, portanto, seria assim - es muss sein.
Logo, não senti incômodo ao tratá-la de uma forma diferente também, não foi proposital. Nunca entendi porque não me referia a ela pelo apelido que todos a chamavam, justifico pra mim mesma através da perspectiva em que a conheci, de ser pra ser. Não houve ninguém pra nos apresentar, foi um novo mundo isolado de conceitos, grupos e nomes.
Não confessei que também achava mais bonito chamá-la pelo nome próprio, simplesmente nunca consegui pronunciar Carol. Carol não fazia parte do que ela era pra mim, tornou-se Caroline desse dia em diante. No momento em que partirmos, cada qual para seu próprio caminho, Caroline partirá junto e deverei chamá-la de Carol. É preciso que seja assim - es muss sein.

Branca de Neve

Posted on 23:16 In:




























Palavras da madrugada redigidas em primeira pessoa, resta coragem...
Com amor as águas não teriam turbulência, seria tudo tão fácil.
Poderia ser só paixão, também serve.
A felicidade dos apaixonados, tão almejada.

Podem servir algo que amoleça um coração enrijecido?
Os olhos brilhantes não possuem foco.
Derramam os mais belos poemas. As palavras são as únicas capazes de mudar a feição deste rosto.

Ao vivo não vivo. Sobre a luz da manhã escondo.
Fujo de todos os braços firmes, quero cuidado.
Tudo tem seu preço: será retribuído somente com palavras sujas.
É a puta da esquina, é a virgem Maria.

Seu coração pelo o que quiser de pior em mim, serve?
Perdem tempo, mutilando o que há de vivo por trás das próprias máscaras.
Eu não existo.
Daqui só saem palavras, o coração trêmulo se mantém sempre no peito.

Todos os gestos são descaracterizados, exalam sexo.
Restam as palavras que recebo, são capazes avivar algo em algum lugar.
Até quando?
O tempo voa nesse meu conto (quase que) de fadas.





























O que é a sedução? Pode-se dizer que é um comportamento que deve dar a entender que uma aproximação sexual é possível, sem que essa eventualidade possa ser entendida como uma
certeza. Em outras palavras, a sedução é uma promessa de sexo, mas uma promessa sem garantia.
Tereza está de pé atrás do balcão do bar e os clientes a quem serve bebidas fazem-lhe propostas. Será que acha desagradável esse assédio contínuo de elogios, de subentendidos, de histórias maliciosas, convites, sorrisos e olhares? De maneira nenhuma. Sente um desejo incontrolável de oferecer seu corpo (esse corpo que ela gostaria de banir para longe), de oferecê-lo a essa ressaca.
Tomas não pára de tentar persuadi-la de que entre o amor e o ato do amor são dois mundos diferentes. Ela se recusava a admiti-lo. Agora está cercada de homens que não lhe inspiram a menor simpatia. Que sensação lhe daria dormir com um deles? Tem vontade de experimentar, nem que seja sob essa forma de promessa sem compromisso que é a sedução.
Não nos enganemos, não quer se vingar de Tomas. Procura uma saída para o labirinto. Sabe que é um peso para ele: leva as coisas muito a sério, vê tudo pelo lado trágico, não consegue entender a leveza e a futilidade alegre do amor físico. Como gostaria de aprender a leveza! Queria que a ensinassem a não ser anacrônica!




























Notas dispersas.
Móveis espalhados ao acaso.
Vento dando de cara contra a parede.
Luzes fragmentadas.
Apenas restos de falas. As que consigo lembrar.
Promessas. Por que perder seu tempo?
Tua voz. Minha cabeça rodando.
Recordações dos teus versos, dos teus gemidos, daquilo que pareceu, por um instante, ser o que eu viria a amar em você. Desperdício de intenções.
Sobra de descuidos e inverdades. Tua camisa, emprestada em um dia de chuva. Jogada ao acaso sobre minha televisão. Não toco.
Não consigo encostar. Te mando pelo correio? Jogo fora?
Teu tom, teu som, tuas marcas no meu violão.
Apago tudo fechando os olhos.
[...]

Eu espero

Posted on 22:05 In:




























Na noite passada fui questionada sobre o significado das memórias encrustadas de sensações antigas, sentimentos passados que nós assustam tanto mas que desejamos mais do que tudo possuir novamente.
O que significa essa falta de sentimentos que dura tanto, que nós persegue de maneira miserável mas que pode, facilmente, se acabar de uma hora pra outra?
Nunca foi capaz de ser gradual, não comigo. Ou é sim ou é não, nunca há o que aprender.
Está entre o momento em que saímos por uma porta, despreocupados, e o breve retorno, sim o retorno é tão diferente. Há toda uma bagagem de sentimentos e reviravoltas que voltam e estão intimante ligadas a esse breve momento do retorno.
A pequena menina me confessou que sentia falta de olhos brilhantes mas que, no fundo, era melhor assim estaria fora do mundo por um tempo.
Também sempre acreditei nisso por muito tempo, confesso, mas lhe disse que há muito o que conhecer e que há pouco me descobri extasiada por um novo saber.
Não sente medo? - me perguntou. O que será se tudo der errado? Como ficará se todos se forem de uma vez por todas? Não tem medo de ficar sozinha?
Respondi-lhe que não mais, que cair mil vezes me fará melhor do que a estagnação.
Ela sorriu e disse que quando sentisse medo era nisso que ia pensar, despediu-se "Te ligo amanhã". Não ligou.
O silêncio das pessoas é algo que sempre me inquietou, mas o meu próprio consegue ser mais desconfortante. Sempre tive receio de procurar as pessoas e não ter o mesmo retorno, sempre.
Olhei o celular em busca de alguma mensagem ou chamada perdida durante toda a semana.
A pequena um dia volta com novas perguntas, eu sei. Eu espero.


Cores Quentes

Posted on 02:12 In:



















Vamos ser francos, nunca havia te enxergado além de um rascunho.
No entanto, há cafeína ao extremo nessas madrugadas;
Há corredores e jardins virgens em rubro escarlate.

Ainda resta culpa que se ampara no equilíbrio.
Culpa que enxerga êxtase na fuga.
Por agora, já se foi.
Ficaram somente as cores quentes, você é capaz de ouvi-las?

Está tudo guardado na interpretação da obra, pois no fundo,
Sempre busquei mais que o excesso.
Seu desejo pela composição da forma mais pura, trouxe Sofia,
Tão singela de volta pra mim.

Vi a lua essa noite e quis dormir sem poesia, mas Caroline não deixa.
Caroline se faz presente, traz as horas, traz o homem.
Saiu do rascunho, ficou pra rimar.


Stella

Posted on 01:21 In:























God was there,
Always had the best of drugs,
knew where to get them, brought a ladyfriend...
And i believe her name was Stella,
and he said: Stella, Stella,
i wanna give you the world if you just stay with me tonight.





























Não quero amar o braço descarnado
Que se oculta em meu braço, nem o peito
Silente que se instala no meu lado.
Na presente visão de seu passado
Em futuro sem tempo contrafeito,
Em tempo sem compasso transmudado.
O morto que em mim jaz aqui rejeito.
Quero entregar-me ao vivo que hoje sua
De medo de perder-me em pleno leito.
A luz de ardente e grave e cheia lua.

Quando chegares ao aeroporto,
ainda não terás chegado;
quando chegares até meu abraço,
ainda não terás chegado;
quando chegares a alguma casa,
ainda não terás chegado;
quando chegares até o centro,
até o centro de meu ser,
ainda não terás chegado,
ainda não terás chegado.

Mas quando fores para teu leito
mas quando a sós adormeceres
e quando tudo estiver escuro
quando eu, de pé, ao pé de teu sono,
sentir teu sono, teu sono justo -
aí então terás chegado,
terás chegado.

De Leão

Posted on 21:50 In:















Não, sim e não. Sim, não e sim.
Melhor opor o 8 aos 80 do que sentir tudo meia-boca, feito fuligem: decidir por cair três vezes de cabeça ao invés da estagnação, do nada.
Quebrar rotinas como quem troca de roupa, enfiar prosa na poesia - entre achados e perdidos, preto no branco, acabemo-nos todos, ímã que se partilha.
Pôr um preço alto na alma e esquecer o corpo: decidir pela sonoridade da leveza e pela solidão sem jargões, pura e simples.
Ser mais Rolling Stones do que Beatles, escancarar, só quem se mostra vive de verdade. Ser fugaz, ter tesão pelo estrago.
Bom de se vestir é sempre tirar a roupa depois, isso que fica sobre a pele é tão removente, sobressalente, sempre.
Viver sempre na verdade, isto é, na própria verdade. Egoísmo alheio recheado de princípios próprios, sem moralismo.
Reinventar a própria realidade, quantas vezes for preciso e com quantas pessoas for preciso.
Por outro lado... todavia... através do espelho... como ser aqui, isso, se não se conhece o outro aí?
Não venha me dizer, mais uma vez, que é apenas personalidade forte.



























Toda vez que penso em você
Eu sinto passar um raio de tristeza por mim
Não é um problema meu, mas é um problema que acabei encontrando
Vivendo uma vida que não posso deixar para trás
Não faz sentido me dizer:
"A sabedoria de um tolo não vai te libertar"
Mas é assim que as coisas são
E é o que ninguém sabe é que a cada dia minha confusão cresce

Toda vez que vejo você no chão
Eu fico de joelhos e rezo
Estou esperando pelo momento final
Que você dirá as palavras que não posso dizer

Eu me sinto bem, tão bem
Estou me sentindo como nunca estive
Eu simplesmente não sei o que lhe dizer
Porque não podemos ser nós mesmos como eramos ontem?
Eu não tenho certeza do que isso significa
Eu não acho que você seja o que mostra
E na verdade admito para mim mesmo, que machucar outra pessoa
Jamais me mostrará a verdade que deveríamos ter sido

Toda vez que vejo você caindo
Eu fico de joelhos e rezo
Estou esperando pelo momento final
Que você dirá as palavras que não posso dizer





















[...] De perto ou de longe todo mundo estaria olhando; era preciso, de uma maneira ou de outra,
representar uma comédia diante de todo mundo; em vez de ser Sabina, ela seria forçada a representar o papel de Sabina e a descobrir a maneira de representá-lo. O amor oferecido ao
público como um alimento ganhava peso e tornava-se um fardo. Só de pensar nisso curvava-se, por antecipação, sob esse peso.
Estava ainda em plena confusão e não sabia se devia ou não ficar contente. Pensou no encontro deles no vagão-leito do trem de Amsterdã. Tivera vontade, naquele dia, de se jogar a seus pés, suplicando-lhe que ficasse com ela, de qualquer maneira, e que nunca mais a deixasse partir. Naquela noite, quis acabar de uma vez por todas com essa perigosa viagem de traição em traição. Teve vontade de parar.
Voltaram para o hotel no meio da animação da noite.
Sabina fez sua toalete no banheiro bem devagar, despiu-se e olhou por longos minutos no espelho do quarto de hotel. Enquanto Franz a esperava embaixo das cobertas da estreita cama de casal. Como sempre, havia uma pequena lâmpada acesa.
Voltando do banheiro, desligou o interruptor. Era a primeira vez que fazia isso. Franz deveria ter desconfiado desse gesto. Não deu importância para ele a luz não tinha a menor importância. Durante o amor, como sabemos, ele fechava os olhos. É justamente por causa dos olhos fechados que Sabina apaga a luz. Não quer mais ver, nem por um segundo, essas pálpebras fechadas. Os olhos, como se diz, são a janela da alma. O corpo de Franz debatendo-se sobre ela com os olhos fechados é para ela um corpo sem alma. Parece um pequeno animal, ainda cego,
emitindo sons chorosos por que tem sede.
Não, não quer nunca mais vê-lo debater-se desesperadamente sobre ela, hoje é a última vez, irrevogavelmente a última!
Sem dúvida nenhuma, sabia que sua resolução apenas de como ele era na cama era a maior das injustiças, que Franz era inteligente, entendia seus quadros, era bom, honesto, bonito, mas, quanto mais reconhecia suas qualidades, mais tinha vontade de violar essa inteligência, essa força débil.
Amou-o nessa noite com mais ardor que nunca, excitada com a idéia de que seria a última vez. Amava-o e já estava em outro lugar, longe dali. Já ouvia soar ao longe a trombeta de ouro da
traição e sabia ser incapaz de resistir a essa voz. Parecia que diante dela se abria um espaço de liberdade ainda imenso, e a imensidão desse espaço a excitava.
Um sobre o outro, ambos cavalgavam. Iam ambos em direção às distâncias que desejavam. Aturdiam-se ambos numa traição que os libertava.
Franz cavalgava Sabina e traía sua mulher, Sabina cavalgava Franz e traía Franz.





















O que é viver na verdade? Uma definição negativa é fácil: é não mentir, não se esconder, não dissimular nada.
Para Sabina, viver na verdade, é mentir nem para si nem para os outros, só seria possível se vivêssemos sem público. Havendo uma única testemunha de nossos atos, adaptamo-nos
de um jeito ou de outro aos olhos que nos observam, e nada
mais do que fazemos é verdadeiro. Ter um público, pensar no público, é viver na mentira. Sabina despreza a literatura em que o autor revela toda a sua intimidade, e também a de seus amigos.
Quem perde sua própria intimidade perde tudo, pensa Sabina. E quem a ela renuncia conscientemente é um monstro. Por isso Sabina não sofre por ter de esconder seu amor. Ao contrário, para ela esta é a única forma de viver na verdade .

Caroline

Posted on 20:28 In:



















Me peguei essa noite pensando no seu sorriso, e na forma que você as vezes simplesmente me olha sem expressar nada por breves instantes.
Que palavras são essas que me dizes sem dizer? Quais cores escondidas atrás do que realmente quer dizer? Tenho me confundido na tentativa de te decifrar.
Tenho me confundido a maioria do tempo em que me pego pensando em você.
E quando eu penso demais, não há lua, não há nada por trás da minha auto traição. Minto, há álcool.
Com o álcool eu olhei fortemente para os resquícios líquidos que sobraram em mim e tive a certeza de que poderia abrir mão de tudo que já não sinto e escolher. Sim, a única coisa que me veio na hora foi como eu poderia facilmente me apaixonar por você.
Poderia?
O que é fácil, banhado pela essência de serotonina da noite, é sempre tão difícil sobre a luz da manhã.
Fiquei sóbria e corri, corri até não poder mais. Eu fugi mais uma vez.
As pessoas tem muito pudor. Pudor de parecer ridículos, melosos, românticos, banalizarem o amor.
Eu tenho medo é de nunca ser capaz de banalizar nada. O meu medo vem da ausência de humanidade, é um egoísmo chulo e desnecessário que me conforta, me mantém longe do teu sorriso.
A questão agora é: Você existe ou eu simplesmente te inventei esse tempo todo?
Enquanto não encontro a resposta, continuo vivendo de velhos sonhos límpidos que, por enquanto, só enganam.



























Karênina porque fez isso?
Karênina, digas porque?
Isso a tornou mais infeliz?
Você sabe que tornou, então porque persiste?

Karênina você tinha tudo, porque escolheu destruir dessa forma monstruosa?
Não é honrável,
Não condiz com sua conduta.

Jovem, tola e sozinha.
Escolheu se entorpecer ainda mais...
Eterna masoquista de sons, palavras e sabores.

Vamos lá Anna, o que te impede de se jogar ao trem?
É assim que Tolstói termina,
E exatamente assim que você irá se manchar.

Escolhes o pior, escolhes o que dói.
Até quando?
Só lembre-se, que o álcool já não ameniza mais.




*Anna Karênina, um dos mais famosos romances de Leon Tolstói.

Os cigarros de Miguel

Posted on 22:05 In:



















Eu o amo tanto Miguel, tenho certeza de que fomos tão felizes juntos...
Sinto lhe dizer que o amor que sinto por você não é o mesmo que você sente por mim, isso não significa que ele seja pior, não.
Eu o amo como se você fosse parte de mim, eu sempre estarei aqui pra cuidar de você.
Porque não pode ser assim?
Porque você não poderia ser meu irmão, se o amor que eu sinto por você se equivale a força de um laço sanguíneo?
Eu me sinto terrivelmente suja, pois você sempre foi tão bom pra mim e eu sinto incapaz de retribuir todo esse carinho da mesma maneira.
A verdade, é que sempre que há encontros e desencontros descobrimos algo.
No nosso primeiro desencontro descobri que te amava, nesse último que talvez a insegurança não deixe que te ames como homem.
Porque eu sinto que estou te machucando ao sentir isso?
Porque eu estou me punindo tanto por isso?
Pois eu não quero te ver longe de novo, nós sempre fomos os melhores companheiros.
Só te peço que não vá embora, por favor...
Só não vá embora de novo.
Eu sinto tanta falta do cheiro dos cigarros nos seus dedos...
Não vá embora.